19 de out de 2010

Comentários ao texto anterior

Comunicar-se adequadamente através da utilização de palavras é, sem dúvidas, um grande e humano desafio e uma eterna casualidade. Palavras são como tiros ao alvo praticados no escuro. Poucas vezes o alvo é alvejado senão por obra do acaso, intermediado por uma matemática complexa,repleta de probabilidades infinitas, pouco ou até mesmo nada conclusiva. 

Quantas foram as vezes, nas quais se poderia dizer, que nossas palavras foram completamente compreendidas? Quantas vezes pôde nascer essa estranha sensação de uma conexão real com outra pessoa? São momentos, nada mais. São momentos nos quais as nossas experiências se entrelaçam gerando uma compreensão mútua, uma alegria de ser, de reconhecer que, naquele momento, você foi compreendido e mais do que isso, que soube compreender. Muitos desses momentos são breves, tão breves que comprometem um contato mais amplo, e nos decepcionam porque temos o péssimo hábito de criar expectativas e ilusões infrutíferas. Outras vezes, temos a nítida impressão de que estamos entre iguais e que, finalmente, podemos descansar de nossas preocupações de ser, de parecer, de obter aprovação, de ir e vir com a certeza de que estamos certos,- afinal há mais gente que pensa como nós. Mas essa conexão é feita de momentos e não é permanente. Parece fácil confundir seu propósito de nada mais ser do que um simples e transitório instante de nossas vidas. Por isso não é raro encontrarmos alguém a quem sempre nos fizemos compreender e vice-versa, em uma atitude ou condição que de modo algum aprovamos e sequer toleramos. É que projetamos nele parte do que somos, e nos decepcionamos quando a realidade sobrevém. É difícil aceitar que alguém seja tão semelhante a nós e ao mesmo tempo, tão diferente.

As palavras, uma vez lançadas, podem ter qualquer sentido, os mais diversos, e até mesmo, os mais absurdos e contrários ao que originalmente representam. É muito fácil, e quase nada raro, que uma simples frase, apenas um conjunto de letras seguidas de espaços vazios, (muitas vezes algo como um simples cumprimento), possa despertar profunda simpatia, absoluta indiferença, infinito desprezo ou apatia e até mesmo ódio e violência física, verbal e emocional em outra pessoa ou grupo de pessoas.

Há quem diga que essa compreensão depende de como a frase é expressa, se aparenta sinceridade ou não, se é acompanhada de determinados gestos que a comprovam, se a entonação atinge o padrão esperado ou chega através de alguém que imaginamos, pela aparência, por pré-julgamentos ou simplesmente por achar que conhecemos esse alguém bem o suficiente para achar que não possa estar sendo verdadeiro naquela circunstância. Porém, o que ocorre é que muitas vezes, uma mesma frase, dita sob as mesmas condições físicas, pode fazer com que seu emissor seja amado, ignorado ou odiado e tudo isso simplesmente porque as palavras dependem dos sentimentos e valores de quem as recebe e não somente de quem as emite. 

E se é possível que cada pessoa interprete uma frase de tão diferentes modos, não será então possível que cada qual as interprete de acordo com o que carrega dentro de si?

A insustentável leveza do ser

Depois da guerra a que ela mesma se submeteu, já não podia mais viver aquela fantasia. Era simplesmente um novo dia e já não mais poderia escutar as palavras e lhes conferir qualquer sentido. Pois que as palavras, são apenas os sons articulados de ideias preconcebidas, que de modo algum, uma vez compreendidas, expressam por si a verdade que quem as comunica. São as palavras desprovidas por si, de qualquer significado e importância, e agora, ela bem o sabia. Os sentidos que atribuía ao que ouvia, nada mais eram do que ecos de suas próprias fraquezas e imperfeições, de suas vaidades e contradições. As imagens que interpretava eram meros reflexos de si, espelhados em outros olhares, seres a quem por debaixo dessas representações fictícias não poderia enxergar; não sem esvair-se de si, ao menos por instantes, - suficientes o bastante para despertar a consciência que viria a iluminar pequenos pedaços escuros de si, que haviam sido infecundos até aquele momento e que agora, tal como solo estéril, eram lentamente preparados para florescer através da consciência do seu engano e do vislumbre de novas e empolgantes descobertas.

Foi naquele dia em que ela caiu e já não sabia bem se queria levantar, se preferia deitar e esquecer tudo aquilo, se esperava por alguma mão amiga que a retirasse daquela condição infeliz, que ela refletiu realmente sobre o que a vida vinha lhe oferecendo e se ela não estava se eximindo da sua grande parcela de culpa que por descaso, preguiça, medo ou ignorância, a impediam de enxergar que estava exigindo muito dos outros, esperando que através de suas palavras pudesse se fazer compreender ou ser compreendida quando na verdade mal podia compreender a si mesma, através das palavras que ecoavam e por vezes gritavam dentro de sua mente. E com esses novos olhos que rasgavam a escuridão de seus medos, tudo pareceu conectado. O sentido de ser está no sentir de cada um e não nas palavras que lhe atribuímos. Não está no outro e na verdade, independe dele, está além de qualquer fato, opinião, crítica ou merecimento, ele simplesmente é. O que acontece é que a leveza que decorre disso é insustentável para a maioria de nós.

14 de jun de 2010

Todo o peso do mundo

 "Nunca se pode concordar em rastejar, quando se sente ímpeto de voar." 
(Helen Keller)

Acordou e foi ao banheiro, lavou o rosto, escovou os dentes e olhou-se no espelho. Tudo teria sido exatamente tal qual sua rotina, não fossem seus olhos.

Viu-se no espelho e admitiu que aquele olhar, tão perdido e distraído, tão descrente e despercebido, já não era mais assim. Era agora um olhar profundo, um pouco melancólico talvez, mas definitivamente, um olhar menos raso e mais observador e muito, muito mais direto. Olhou para si e, tomada de assalto, subitamente teve um surto de lucidez que a modificou de maneira intensa e sobretudo, assustadora.

Naquele dia, percebeu que não poderia mais levar a vida do mesmo modo. Não somente por não assim o desejar, mas também porque simplesmente não era algo possível de ser realizado. Não poderia abrir os olhos e agir mecanicamente como havia se acostumado a fazer, por repetição, por condicionamento, por educação, pela vida que levava, pela opinião dos que lhe eram importantes, pela crítica de quem que acreditava não merecer a sua consideração, por apatia ou mesmo pela falta de fé que lhe acometia com frequência.

Já não poderia apontar os culpados para todos os seus frustrados e não concretizados desejos de ser, de ter, de fazer, pensar e sentir, sem lembrar-se daquela imagem que enxergara no espelho, tão bem refletida em suas pupilas.

Sentiu um peso do tamanho do mundo lhe sair das costas e por instantes desejou que pudesse voltar atrás. Sua espinha havia se conformado àquele peso, mas não haveria como, uma vez que não mais lhe cabia carregar aquele fardo pesado que tantos outros carregam, talvez sem notar que possuem o mesmo poder de escolha.

Aquela leveza era tanta, mas tanta, que se sentiu muito solitária, flutuando sobre todo o resto, que agora não parecia mais ter a mesma importância de antes. E perguntou-se então, se aquilo não a faria afastar-se dos que amava. Desesperou-se diante do panorama traçado. De repente, soube tão bem compreender por que é tão mais fácil optar pelo caminho desgastado das multidões que o seguem pela tradição e companhia dos demais. Padecer junto a milhares parece mais confortável do que viver isoladamente em um mundo onde se bem sabe qual a parcela de contribuição negativa que nos faz colher bem menos do que imaginamos merecer.

E iniciou-se então uma nova busca. Se não poderia mais seguir aquele caminho, para onde se dirigiria? Não gostaria de viver só. Haveria de escolher entre as pessoas as que fossem capazes de caminhar ao seu lado? Não, pois era mesquinho demais. Depois de muitas flutuações e alguns vôos distantes, depois de algumas quedas e te ter-se perdido por não saber em que direção prosseguir, parou de tanto remoer aqueles pensamentos todos que emergiam de sua mente sem qualquer tipo de controle ou censura.

Decidiu que trilharia um caminho diferente, mas estabeleceu que o traçaria próximo o bastante do caminho dos que amava para que pudesse mantê-los sob suas vistas e oferecer-lhes a mão e os ouvidos toda vez que caíssem e se desesperassem e também, é claro, para receber deles um abraço e palavras de conforto quando sentisse que a responsabilidade que havia tomado para si era maior do que poderia suportar. Sabia que seus conselhos seriam ignorados tantas vezes quanto fossem oferecidos. Sabia que mesmo que arrancasse aqueles olhos não os poderia emprestar para que enxergassem que haviam vários outros caminhos e que cada um poderia traçar o seu próprio. E, ao abrir mão de querer conduzir consigo aos que tanto amava, pôde então lhes dar algo muito mais valioso e útil: a liberdade.

12 de abr de 2010

Universo Paralelo





Criei dentro de mim um universo convexo, invertido e paralelo à realidade.
Nele, eu enxergo as pessoas como se estivessem despidas.
E quando me agridem me faço sorrir,
Pois que, no íntimo, bem somos todos como crianças.
Tapando os olhos com as mãos para fugir do que temos medo.
Criando conceitos através de como nos são vendidos.
Enxergando nos outros, tais como espelhos,
As rachaduras e infiltrações de nossos espíritos.
Nele eu amo mais do que a realidade permite.
E escuto mais com as palavras que não ouço.
Crio estórias com finais bem felizes.
E deixo páginas em branco.
Porque gosto de rascunhos, os acho bonitos.
Nele, eu reparo mais nas pessoas que amo.
E agradeço, em silêncio, a cada um, por sua existência.
Nesse meu universo paralelo não há perfeição.
Porque ser perfeito é condição.
E nele não há espaço para dúvidas.

9 de fev de 2010

Predadores não podem ser domesticados


   E ela não se fez de rogada. Levantou, calçou suas botas e abriu aquelas portas que davam para a rua sem nem pensar em voltar atrás por sequer um segundo.
   Deixou naquela casa todos aqueles pertences que ganhou de presente e que, com aquelas palavras que ecoavam em sua mente, não eram nada mais do que o pagamento por todos os dias em que se entregou àquele amor doentio.Poderia recomeçar de qualquer ponto tendo a sua liberdade de volta mas não permitiria jamais que arrancassem as suas asas e a transformassem em um passarinho domesticado. Não uma mulher como aquela.
   Há assim, pessoas que aceitam viver como passarinhos tendo uma alma de predador. Em troca de segurança e proteção deixam-se viver sob os domínios de outras de modo que sua real natureza é vista como algo a ser escondido, controlado, negado enfim. E se mesmo um passarinho, acostumado com a liberdade, sofre de apatia quando trancafiado em uma gaiola que o priva dessa liberdade de ser, de ir e vir, o que se dá quando trancamos um ave selvagem por natureza? 
   Com cuidado ela pode muito bem se conformar e criar laços com seus cuidadores, mas não faltarão oportunidades para que demonstre a sua agressividade e essa violência será considerada inoportuna e contrária por quem a enxerga à primeira vista.
   Acontece que essa ave tem instintos e e estes tem funções dentro do seu ambiente natural. Uma ave de rapina muitas vezes é descrita como inimiga natural de outros pássaros por serem suas predadoras mas o que poucos sabem (e nem buscam saber) é que são essas aves responsáveis pela proteção de seus próprios ninhos e dos ninhos de todos os pássaros vizinhos de modo incidental. Assim, mesmo para uma presa, é útil construir o seu ninho ao lado de uma ave predadora pois esta sem querer acaba afugentando outros animais. Não há nada de errado em ser selvagem se você está dentro do seu ambiente natural, o que está no mínimo deslocado é viver falsamente como um pássaro doméstico e ter crises violentas de identidade para com as pessoas que acham que estão fazendo o melhor por você e no fundo você está a enganar a si e aos outros.
   Não podemos viver afastados de nossa real natureza sem pagar o preço de sermos qualquer coisa menos nós mesmos e mesmo assim, entre rompantes de fúria desse eu que fica aprisionado na gaiola do medo, do conformismo, da auto-comiseração e da piedade.
  E foi dessa forma que ela partiu, com a roupa do corpo, mas com a sensação de que o mundo lhe pertencia e que podia finalmente traçar o seu próprio caminho.Para onde esse caminho a levaria ela ainda não tinha certeza, mas sabia que só assim poderia viver com a liberdade que sua natureza exigia.

5 de jan de 2010

Um prêmio e um castigo.

     Este blog foi criado há mais de dois anos atrás, exatamente no dia 14 de fevereiro de 2008, e embora a idéia de nele escrever os meus textos/pensamentos seja inclusive anterior à sua criação, somente ontem obtive permissão para torná-lo funcional e não apenas um endereço na internet sem conteúdo algum.
     Tal permissão obtive, não sem conflito, após longo tempo de caloroso debate entre um lado meu, que pensa, - e com o qual sempre convivi relativamente bem, diga-se de passagem; e um outro lado, que há bem pouco tempo tive o desejo vivo de desenvolver em mim e que, certamente, foi o responsável pelo feito de hoje: o lado que faz.
     Ocorre que sou daquele tipo de criatura que pensa demais e que assim, pensando demais, acaba não colocando em prática um décimo do que tem em mente. Tal fato também se deve a uma exigência muito grande que tenho para comigo mesma e faz com que eu jamais julgue bom o bastante qualquer um dos trabalhos que realizo após concluído. Exemplo disso é que, certamente, ao acabar esse post, eu o lerei algumas várias vezes, substituirei algumas palavras e, ao finalmente postá-lo, terei novas idéias a acrescentar-lhe de maneira que, de posse de mais tempo, o reescreveria várias vezes até decidir  inteligentemente  engavetá-lo para todo o sempre, (ou, nesse caso, armazená-lo).
     Para me permitir criar conteúdo aqui, disse a mim que não o faria em caráter de permanência, isto é, como se os pensamentos que aqui pretendo registrar, expressassem algum tipo de verdade/opinião imutável na qual acredito. Não se trata disso de modo algum. É, antes de tudo, um registro de pequena parcela das discussões que tenho comigo em vários momentos do dia, - e da noite. Como estas discussões nunca céssam, não sou pessoa dada à uma rigidez no plano das idéias e estou sempre em busca de pensamentos, fatos e opiniões que me tornem uma pessoa capaz de adquirir uma visão mais tolerante e positiva diante de acontecimentos e visões que me fazem pensar de modo absolutamente oposto. 
     Expressar aqui uma pequena fração de mim é um prêmio e um castigo. Um castigo porque fere o meu perfeccionismo paralisante. Um prêmio porque me liberta. Ao escoar aqui uma parte desse fluxo incessante de idéias que me cerca, organizo e acompanho algo que já não é única e exclusivamente meu, como as centenas de folhas de papel empoeiradas que acumulo há mais de 17 anos sem utilidade alguma em meu quarto e das quais simplesmente nunca consegui me livrar; talvez por cultivar a esperança de que um dia eu pudesse fazer algo como faço agora.

     Sejam todos bem-vindos(as)!