19 de out de 2010

A insustentável leveza do ser

Depois da guerra a que ela mesma se submeteu, já não podia mais viver aquela fantasia. Era simplesmente um novo dia e já não mais poderia escutar as palavras e lhes conferir qualquer sentido. Pois que as palavras, são apenas os sons articulados de ideias preconcebidas, que de modo algum, uma vez compreendidas, expressam por si a verdade que quem as comunica. São as palavras desprovidas por si, de qualquer significado e importância, e agora, ela bem o sabia. Os sentidos que atribuía ao que ouvia, nada mais eram do que ecos de suas próprias fraquezas e imperfeições, de suas vaidades e contradições. As imagens que interpretava eram meros reflexos de si, espelhados em outros olhares, seres a quem por debaixo dessas representações fictícias não poderia enxergar; não sem esvair-se de si, ao menos por instantes, - suficientes o bastante para despertar a consciência que viria a iluminar pequenos pedaços escuros de si, que haviam sido infecundos até aquele momento e que agora, tal como solo estéril, eram lentamente preparados para florescer através da consciência do seu engano e do vislumbre de novas e empolgantes descobertas.

Foi naquele dia em que ela caiu e já não sabia bem se queria levantar, se preferia deitar e esquecer tudo aquilo, se esperava por alguma mão amiga que a retirasse daquela condição infeliz, que ela refletiu realmente sobre o que a vida vinha lhe oferecendo e se ela não estava se eximindo da sua grande parcela de culpa que por descaso, preguiça, medo ou ignorância, a impediam de enxergar que estava exigindo muito dos outros, esperando que através de suas palavras pudesse se fazer compreender ou ser compreendida quando na verdade mal podia compreender a si mesma, através das palavras que ecoavam e por vezes gritavam dentro de sua mente. E com esses novos olhos que rasgavam a escuridão de seus medos, tudo pareceu conectado. O sentido de ser está no sentir de cada um e não nas palavras que lhe atribuímos. Não está no outro e na verdade, independe dele, está além de qualquer fato, opinião, crítica ou merecimento, ele simplesmente é. O que acontece é que a leveza que decorre disso é insustentável para a maioria de nós.


3 comentários:

  1. Palavras e pensamentos travam uma batalha feroz dentro de nós, onde quem sai machucado somos nós mesmos :x
    Que texto denso, cheio de significados e rico de metáforas *-* Adoro isso *-*
    Nossa Hel, promete que posta a continuação? Demais, demais *-*

    ResponderExcluir
  2. Olá, minha querida Helen.
    Você se supera a cada nova investida nas letras. Estes dois posts são, sem nenhuma reticências, dois primores das tuas idéias sempre muito precisas, inteligentes, sensíveis; nem sempre tão claras.

    Essa “ela” (A insustentável leveza do ser), personagem conceitual que você utiliza é por demais subjetiva para ser diversa da tua própria natureza, dispondo-a numa situação por demais complexa para ter sido experimentada em épocas outras e somente agora sendo avaliada. Quer parecer-me muito real e atual. Atualíssima. Uma idéia, um acontecimento, uma sensação, algo despertou essa consciência crítica de que estar sob alguma espécie de “jugo” andava a entorpecer as próprias atitudes. Corrija-me se em algum ponto, ou todos, estiver enganado.

    Concordo contigo em um ponto, quando diz que as palavras são incapazes de comunicar toda a verdade. Discordo ao dizer que seriam desprovidas de “qualquer significado ou importância”. Evidente que a palavra isolada, desacompanhada dos gestos, atitudes e posturas não é competente para delinear um perfil psicológico, uma personalidade, uma entidade, um real e concreto desejo.

    Mas, palavra é registro. Quando se pede a alguém uma resposta verdadeira, esperamos um tom de voz condizente, um olhar transparente, palavras verdadeiras que possam advir do fundo do coração; ou seja, necessitamos da palavra, nem que seja para cobrar atitudes ulteriores. Quando bem utilizadas, o registro tornar-se-á tão sólido que qualquer deslize em contradita ao verbo fará arrepender-se dolorosa e sentidamente o que dela se desvirtuou.

    Palavras, escritas ou faladas, atingem uma mente e será suscetível de operar modificações indeléveis na própria alma de quem as receba. Porque são imagens próprias dos sentimentos. É certo que verbalizar é “recortar” o que vai no fundo de nossas expectativas em relação a tudo, não será o todo; porém, buscará permear o terreno, definirá seus contornos,

    Tal seria essa a sorte das palavras que despertava n‘ela’ um sentido, ainda que sejam os “ecos de suas próprias fraquezas e imperfeições”. Enfim, “despertava um sentido”, mexia de alguma forma com a sua reflexão. Um modo de resgatá-la de seu torpor emocional, de escancarar seus receios e vir a “iluminar pequenos pedaços escuros de si”.

    Os “terrenos infecundos” dentro de nós não o são por mero acaso, nem por descaso do próprio destino. Necessitam do tempo para se fazerem reconhecidos e úteis e, mais que isso, fortalecidos pelas próprias experiências para se colocarem a serviço. O “vislumbre de novas e empolgantes descobertas” não se confirma em toda e qualquer medida do tempo. (continua)...

    ResponderExcluir
  3. (cont.) E para tudo há um tempo. E somente a estrada vivida poderá reconhecer-nos maduros para determinadas experiências sensoriais ou físicas. É o “tempo da consciência”, o que Sartre chamaria de “idade da razão”, o que Kundera chamou de “insustentável leveza”. A consciência efetiva das conseqüências das nossas escolhas. E segundo Descartes, “não há escolha má, o que há é a melhor escolha dentro das circunstâncias e condições no momento da decisão. E para isso, devemos perseverar.”. Não que seja imutável. Tudo pode ser melhorado e, portanto, mudado.

    A liberdade tem seu preço e digo que não seria “tão viável quanto se apregoam na ‘feira’”. Tem uma frase minha, no meu blog, em que digo o seguinte: “Nunca seremos tão livres, que não nos desapeguemos das marcas de nossa história”. Romper com as tradições que nos são impostas, como tenho verificado em seus posts que seria a linha condutora do teu pensamento contemporâneo, não é tão verdadeiramente próprio de seres humanos, que nada mais são do que “produtos culturais sob égides morais e sociais de um tempo e de um lugar”.

    Concordo ainda quando diz que o “despertar dessa consciência” seria a “leveza” naturalmente decorrente e “insustentável para a maioria de nós”. E por que seria assim? Não seria porque nós, de alguma forma, não conseguimos nos desapegar das marcas deixadas pelos outros em nós? Fatos, eventos, expectativas, projetos não nos tornam de alguma forma engajados de maneira que não conseguiremos construir aquela “estrada em que caminharíamos deliberadamente com apenas os olhos atentos aos que nos acompanharíam”? (Teu post anterior). Não seriam nossas “obrigações” existentes pela responsabilidade das escolhas que fazemos? A insustentável leveza assim o é porque contradiz compromissos necessários e úteis ao amadurecimento de nossas atitudes éticas e morais. Porque somos de alguma forma responsáveis por pessoas e coisas, em determinadas épocas de nossas vivências, e isso tudo é que faz a vida valer alguma coisa. Senão seria uma total frivolidade.

    Até mesmo o 'inalienável' artista compromete-se com essa postura ideológica quando passa a fazer diferença com suas performances, discursos, decisões de caminhos a tomar.

    E tudo isso comprova, mais uma vez, através dos teus posts e dos comentários de teus seguidores, que as palavras carregam sim muita importância e significado. Para a demonstração do teu pensamento, a abertura desse debate, os elogios sinceros, verdadeiros e reveladores que você, tão merecidamente, recebe.

    Parabéns! Pela pessoa magnífica que você é, por tudo que representa, pelo teu pensamento lúcido e profundo. Eu amo tuas palavras, tuas atitudes, teu modo de agir e conduzir, teu olhar e senso críticos e tua beleza infinita. Amo você, a artista, a pessoa, o conjunto notório que só você reúne, numa única ser vivente. Você é especial.

    ResponderExcluir