7 de jun de 2011

O GRITO INTERIOR.





Sim, essa sou eu.
Escrevo com o coração. 
Não é todo mundo que entende essa linguagem estranha. 
Não se trata de possuir certa dose de intelecto ou inclinação lingüística, nem mesmo é questão de lógica ou mesmo, de interpretação. 
Escrevo para quem sente comigo e não somente para quem entende o que digo. 
E esse sentimento/entendimento tem a ver com quem é da minha tribo e mesmo não sendo,
Sabe dialogar comigo e com as diferenças que todos nos possuímos.
E sabe que são estas diferenças, as responsáveis por sermos  únicos.
E já sentiu, ou ao menos intuiu, que em alguma coisa, que é tudo menos rasa,
SOMOS TODOS IGUAIS.

O DESPERTAR COMO UM ATO DE CONSTÂNCIA NA BUSCA DE QUEM TRILHA UM CAMINHO PARALELO E CONTÍGUO DE (R)EVOLUÇÃO NATURAL DE SI (E NÃO DO OUTRO).

Passara tantos dias mergulhada em uma série de sonhos repletos de sentidos e verdades tão profundas; - verdadeiras epifanias dentro das quais conservava o vivo desejo de lembrar de tudo aquilo que via, para que quando enfim despertasse para a vida irreal a qual todos chamam de realidade, pudesse enfim entendê-los através de sua mente ávida por novidades e que sabe até mesmo retratá-los; que logo em seguida compreendeu através dos sentidos interiores, que a realidade já não passava mais do que uma camada ilusória de sua própria mente física, e por fim, acabou esquecendo dos motivos pouco nobres que a levaram a desejar tanto fugir para longe de todo o sofrimento e toda sorte de dúvidas que nela havia se alojado durante meses que lhe pareceram infindáveis. Tal desprendimento era realmente um grande oásis em meio a um emaranhado de sentimentos controversos, rancorosos e carregados de angústia e raiva, que a assolavam desde que tomara consciência da atração que exercera sobre os espelhos obscuros de si mesma, e aos quais até então chamava de falsidade e outros adjetivos pouco elevados. Aprendera por fim a reconhecer as suas próprias sombras. 

Entretanto não poderia viver naquele mundo de verdades pouco traduzíveis, era necessária grande dose de coragem para que fosse apresentada aos seus próprios fantasmas, já que a alguns deles reconhecia como seus parentes e amigos (e outros nem tão amigos assim), ao invés de frutos de sua própria limitada capacidade compreensiva (não foi apresentada a todos esses fantasmas, porque eram e são muitos, apenas aos habitantes mais antigos de sua psiquê). Conversar com eles então, e admitir que não eram e nem haviam sido reais ou que haviam sido colocados ali por outros e sim porque havia permitido e precisara que assim o fosse, foi uma tarefa lenta e demorada. Foi preciso grande dose de paciência, sua e de sua guia, doce e enérgica criatura, que interpretava e traduzia a linguagem simbólica dos espectros para a sua mente acelerada e tão desconectada de seu sentir. Era estranho olhar para trás e compreender que tudo havia sido feito como deveria, muito embora ainda fantasiasse voltar ao passado com a mente do presente para confirmar  se de fato saberia ou poderia fazer diferente. 

Aquele estranho processo poderia ser descrito como tirar de si algo que a machucava muito, mas que já estava ali a tanto tempo que se tornara parte de si mesma e que, mesmo prometendo alívio, doeria muito para ser retirado, estava unida e ligada àquela dor. Era ainda, como um curativo aderido a pele já parcialmente cicatrizada, seria impossível encontrar a cura sem retirá-lo e seria igualmente impossível não abrir uma nova ferida para dar espaço a uma pele sadia. Era enfim, um senso de identidade distorcido, um ego lutando para permanecer vivo. Mas o apego e o medo da dor lentamente deram lugar a um extraordinário impulso pela conquista da liberdade, arrancaria a pele se essa pudesse afastá-la mais uma vez do seu impulso de voar cada vez mais fundo dentro de si mesma em busca de um novo caminho, de uma nova direção, da desconstrução completa de todas as crenças e descrenças que não faziam parte de sua essência primária. Por isso ela escolheu  fugir e só retornaria quando tivesse certezas, arrancando de si tudo o que pudesse para não mais impedir o seu perfeito existir.  Cada pedaço retirado, cada parte de si da qual abria mão, cada pequena ferida reaberta em nome da liberdade lhe traziam a leveza de espírito que então já não era insustentável e sim, absolutamente desejável. 

Quando por fim terminou a parte do processo que podia ser concluída em reclusão, voltou à vida para dela não mais fugir e descobriu a energia necessária para seguir adiante.

É grande o medo e a dor quando se escolhe o caminho que leva pra dentro de si e não para longe através da cultura, do materialismo, das pessoas e das ilusões que o ego promove com tamanha engenhosidade; mas essa grandeza é superada pelos opostos da coragem e do prazer de escolher a vida e a transformação que a natureza oferece a cada momento, a cada escolha que libera mais e mais de nós mesmos, impregnando de sentido uma vida que antes era apenas um eco de perguntas sem respostas. 

É uma viagem solitária na qual encontram-se poucos, porém valiosos amigos ao longo do trajeto, e nos momentos de escuridão basta parar o mundo e deixar passar os vagalhões da alma, que vive com profundidade assombrosa, para novamente sentir os raios dos vários sóis para os quais somos atraídos em função de nossa própria vibração conforme vamos adentrando mais e mais profundamente dentro de nós mesmos em busca de algo que só conheceremos plenamente quando já não formos mais um eu, mas o nós, o todo. 

Mais alguns mergulhos pra dentro e mais fundo e torna-se possível perceber que nada do que você faça poderá te fazer ser melhor que o outro, você só pode ser você mesmo. Aliás, tudo o que te resta é ser você mesmo e despertar continuamente para tudo aquilo que não é. E aí aquele sonho ingênuo, autoritário e arrogante de mudar o mundo através da força cede espaço ao sonho de mudar você mesmo a cada dia com força para aceitar e reconhecer a si e ao outro tal como é, e não como a sua bagagem cultural permite enxergar.