1 de dez de 2015

Deixar de acreditar é o seu próprio fim, acredite.

Fazia de tudo para evitar o contato. Qualquer coisa que a fizesse entrar em contato. Fazia malabarismos e mesmo sendo rígida, fazia até mesmo contorcionismos para desviar de coisas que já sabia sobre si mesma: Não gostava de sentir as coisas tão profundamente, achava que podia desaparecer arrastada com elas. A morte, até mesmo essa, que assusta tanta gente, era para ela como descer ou subir um degrau rumo à mesma situação, não mudaria em nada determinados fatos. Há coisas das quais não se pode fugir, nem mesmo morrendo. Talvez a verdadeira morte, pensava ela, seja enfrentar quem se é ou qualquer pensamento de antecipação dos resultados desse enfrentamento. Talvez a verdadeira morte seja encarar os fatos e a realidade de quem se é: não é possível ser outra pessoa, não é possível dar passos para trás e ficar parado exige um esforço ainda maior do que prosseguir, é cansativo fazer tanta força para parar a vida.

Sim, ela era bem doida. Enquanto fazia força para não sentir tanto, se comovia muito com as dores alheias. Parar a vida para observar o sofrimento do mundo é uma distração irresistível para quem desistiu de viver ou perdeu a esperança sobre o que fazer consigo mesmo. Exige tanta coragem seguir adiante diante dos escombros que é fácil confundir quem se vai com abandono e falta de amor. O sofrimento anseia por companhia, o sofrimento anseia por atenção, o sofrimento é carente, o sofrimento é um buraco sem fundo que vai te tragar se você não começar a andar na direção oposta agora mesmo.

Todos temos pactos secretos. Evitamos abandonar tudo aquilo que um dia nos trouxe alegria e uma sensação de que merecemos ser amados, mesmo por alguns instantes, mesmo que isso tenha nos custado a outra metade da alma: aquela que ainda acredita. E a outra metade, a que fica, é a que sente medo, afinal tudo o que depende de outro pode ser perdido a qualquer hora, é preciso ficar atento para não perder, seja lá o que for que possa substituir essa sensação de segurança que nos faz refém de alguma coisa que nem sabemos direito qual é. Isso é como um gás invisível que contamina ao ar por onde passa, faz os bons perderem a fé e deixarem que toda a esperança seja tomada de assalto, transforma  inclusive aqueles que um dia acreditaram em destruidores de sonhos alheios, é um ciclo sem fim. 

Se você não tomar de volta a sua metade que acredita, é mesmo o fim. Acredite.