3 de mar de 2016

Por que cultivar a Esperança é importante pra mim.

Sou bisneta de uma mulher de origem humilde que se chamava Conceição, que significa ato ou efeito de conceber, gerar; concepção. Essa mulher tímida, sensível e cheia de fé possuía constituição e saúde frágeis e era dada a problemas de asma e bronquite. Casou com meu bisavô, que se chamava Máximo Leopoldo e que era sapateiro, brilhante orador e comunicador, ávido leitor, exímio musicista, autodidata e boêmio inveterado, e com ele deu à luz à cinco filhos, três dos quais morreram ainda bebês. Provavelmente a desnutrição tenha tido a sua influência, já que a alimentação desde essa época na maior parte das vezes era constituída de farinha e água devido aos recursos financeiros bastante limitados de que dispunham. À uma das duas meninas que sobreviveram e vingaram, deram o nome de Esperança, na esperança de que essa não sucumbisse à morte como as demais que a antecederam. 

Essa criança chamada Esperança é minha avó, e foi mãe de 5 filhos ao lado do meu avô Renaud, ex combatente e sobrevivente dos horrores da Segunda Guerra Mundial na Itália. Juntos criaram os filhos para que ela conseguisse realizar o sonho de cursar faculdade numa época em que as mulheres eram chamadas a ficar em casa para cuidar dos filhos e nada mais. Com apoio dele, conseguiu por fim obter o diploma de bacharel em Letras, ao mesmo tempo em que trabalhava como professora em escolas públicas.

Quando meu avô a conheceu era conhecida na Saúde Pública, onde trabalhava e já então com 28 anos, como Maria de um Dente Só, pois era banguela. Meu avô, que era de família de classe média, disse que nunca encontrou nenhuma explicação para se casar justo com uma mulher banguela tendo tantas outras mulheres ao seu dispôr. Ele sempre diz que simplesmente sabia que não poderia deixá-la naquela vida difícil sozinha. Desconfio que era pra ser. Se casaram. Minha bisavó, Conceição, já doente e fraca morreu um dia depois do casamento deles e minha avó conta que ela aguentou firme somente para vê-la casada. Passaram fome, se endividaram juntos, melhoraram de vida juntos e meu pai, que se chama Ronaldo, certa vez foi aquecido já roxo e quase sem vida no fogão a lenha em meio à orações para que não morresse de problemas respiratórios dos quais sofria quando bebê. Sobreviveu. E cá estou eu escrevendo tudo isso.

A fé e a esperança sempre foram uma constante na vida de minha avó. Provavelmente sem fé e sem esperança jamais teria conseguido sair da vida difícil que teve. Essa herança eu carrego comigo pra onde vou e acredito firmemente que se as coisas não deram certo, é porque ainda não chegaram ao fim.

Hoje em dia é bastante comum ouvir palestras e ler textos espiritualistas que afirmam que devemos deixar a esperança de lado para dar lugar à confiança pois a esperança deriva do ato (inerte) de esperar que algo de bom aconteça no futuro ao invés ter confiança, que significa ter fiança, isto é, ter fé em algo ou alguém, seja em si mesmo, seja em Deus ou em crenças particulares.

Na minha acepção, esperar é uma coisa e cultivar a esperança é outra. Cultivar a esperança é não desistir de tentar mesmo quando tudo leva à descrença e a desesperança, é agir acreditando que um dia haveremos de colher o que tivermos semeado e, mesmo diante das fatalidades, (afinal nem tudo está sob o controle de nossas ações materiais e a verdadeira criação de um futuro melhor está em nossa capacidade de cultivar sentimentos e ações de positividade, de aprender com os erros, de ter humildade de aceitar as experiências pelas quais precisamos passar para aprender e crescer rumo à uma consciência maior e mais abrangente) e jamais desistir do melhor.

Cultivar a esperança nos concede a virtude de esperar, não passivamente, mas pacientemente, que as sementes plantadas e regadas brotem e que dias melhores cheguem, mesmo quando tudo o mais venha a falhar, mesmo que esses dias melhores cheguem depois da morte do corpo físico e que a felicidade venha na certeza de que nossas vidas e nossas lutas trarão sorrisos aos rostos das crianças nascidas e das que ainda chegarão. Esperança sem ação é Expectativa e esta é a mãe da Frustração e eu ainda não vi elas criarem nada de útil nesse mundo.

Esperança, contudo, não significa somente que dias melhores virão, significa também lembrar que o hoje é melhor do que vários outros dias de ontem e ter gratidão por tudo que conquistamos de melhor em nossas vidas e em nós mesmos, principalmente. A Esperança também traz consigo a Gratidão e o Amor e é por isso que ela é assim tão importante pra mim. Sem dificuldades e desafios não saberíamos reconhecer as conquistas e os presentes que a vida nos oferece e sem Esperança não suportaríamos momentos de injustiça e perdas que muitas vezes acabam levando as pessoas a serem muito melhores do que imaginavam ser enquanto outras desabam por muito menos.

A Esperança é e sempre será a última a morrer. Acredito na vida eterna da alma e na multiplicidade das nossa vidas e isso eu aprendi com ela, a minha avó, que se chama Esperança, que por sua vez aprendeu com seus pais que aprenderam com alguém que jamais conheci e sequer será lembrado por isso. Às vezes até ela esquece das coisas que me ensinou, mas eu sempre estou lá pra me lembrar e pra não deixar que ela esqueça. Cada vez que plantamos coisas boas no coração das outras pessoas, essas sementes nascem e elas florescem, seja nessa vida ou seja na vida dos que virão depois. Então cultive a esperança que esse planeta seja um dia um lugar melhor, mesmo com tantas notícias e acontecimentos nos mostrando exatamente o contrário, basta continuar semeando que um dia as flores virão.


Um comentário:

  1. O universo tem sua maneira de fazer as coisas e mesmo a natureza não é exatamente um lugar não hostil. Toda forma de vida luta para conseguir prosperar. A perseverança vence. A esperança está na crença de que com a luta haverá um final que seja bom. Ou, pelo menos, que haverá uma trajetória que seja consumada pela vitória de cada dia.
    Um abraço fraterno, Hel, e que tudo prospere em tua vida sempre!

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