6 de mai de 2016

**A arte de parir a si mesmo para o criar consciente**


Imagine você criando desgovernadamente filhos no mundo sem lhes dar a atenção devida, somente pelo prazer que o ato lhe causa: ver as suas obras nascidas e tão logo prontas a serem mostradas ao mundo sem qualquer outro trabalho, quer seja de refinamento, de adaptação, revisão, resignificado e reorganização. É como ver a criança com saúde com sua perfeição e alegria próprias, - estado esse não dura mais do que algumas horas sem alimento e calor, e se achar digno de sua autoria e, por isso, de mérito próprio.

Esse é o estado na pura criação mental, semelhante à um tipo de não-paternidade, aquele macho que deposita suas sementes no solo feminino, some e reaparece depois de anos reclamando o direito da paternidade ou àqueles pais que se orgulham dos filhos que criaram à sua imagem e semelhança, muitas vezes num processo de repressão de potenciais considerados perigosos à sua própria auto-imagem.  Existem casos em que a mulher nem existiu, você idealizou e não materializou, portanto, não criou nada. Reflexo de uma sociedade, já não mais restrito à questões de gênero ou sexo biológico, do desaparecimento do instinto da maternidade na criação. Maternidade requer tempo e dedicação, algo que a rapidez e a tecnologia nos fez esquecer com tantas informações e o escancaramento da necessidade de sermos vistos e ouvidos, lembrados e amados, exatamente quando éramos crianças e não éramos levados a sério por ninguém. Meros procriadores e reprodutores de conteúdos pré fabricados visando a obtenção de resultados que nos diferenciem das massas, essa entidade sem forma definida a quem ninguém mais tenta compreender de fato: será porque sem querer só mudamos de lugar na manada sem saber? Talvez tenhamos comprado coisas e casas melhores, mas estamos produzindo coisas melhores pra deixar no mundo?

A inteligência deixará em breve de ser a capacidade de acumular dados e ideias inacessíveis às demais inteligências menos adaptadas ao raciocínio, será medida pela capacidade de se auto gerir, isto é, por se manter equilibrada e estável diante de todas as demais espécies de inteligências, se manifestando tanto no plano imaterial quando co-criando no plano material. A inteligência é a mente superior que desperta para seu pleno potencial, ela já não tem necessidade de provar o que sabe ou se distanciar do que lhe soa como diferente e desprezível, ela conhece a natureza das coisas e como funciona, ela já viu isso acontecer muitas vezes, agora ela simplesmente lembrou. Lembrou também que já nem precisa dessa preocupação com o dinheiro ou status, pois tudo o que ela precisa para existir já está lhe sendo oferecido desde o primeiro dia em que nasceu. O que ela faz é desfrutar, sem se identificar com rótulos, o que vai no seu interior, ela mesma sabe, não precisa mais mostrar nem mesmo esconder, ela já não tem medo da resposta que vai dar, sabe que na hora ela virá do seu melhor lugar: de dentro.

Todos esses filhos que você colocou no mundo, agora soltos e à revelia, muitos esquecidos, borrados, apagados por não terem tido a sua dedicação em lhes mostrar seu valor, todos se lembram de quem os criou com um misto de tristeza e daquele vazio do que poderiam ter sido se por algum momento você tivesse acreditado neles e investido seu tempo em cuidar deles até que estivessem prontos para serem exibidos por seu próprio valor, e não pelo seu, por tê-los simplesmente criado, mas por ter enxergado neles a própria face do amor, uma pequena parte sua que se transformou em algo melhor e mais bonito simplesmente por ter sido amada e apreciada como deveria e por tempo suficiente para concentrar sua essência. Para ser mãe e pai de uma obra, você deve parir a si mesmo ao menos uma vez na vida. E pra renascer, precisa passar por pelo menos uma morte ainda nessa vida. Se não estiver disposto a pagar o preço, deixe pra próxima rodada, talvez daqui a mais uns milhões de anos já que em breve será convidado a resetar todo esse jogo e escolher se você vai começar do zero ou se vai partir pra outra fase, talvez mais complexa ainda à seu próprio modo, numa oitava logo acima.

Criar dessa maneira, sendo pai e mãe de si mesmo, antes de tudo, é uma outra forma de amar a você mesmo em pequenas porções de modo a permitir que seus filhos sejam livres e se expressem. Poderá produzir várias obras e até mesmo ter filhos de carne e osso, mas a tarefa deles é sempre um encontro marcado consigo mesmo. Se isso não pode acontecer, há ainda espaço para a interpretação. Esta, por si mesma, torna a pessoa livre da necessidade de dar filhos ao mundo. O personagem mesmo se desdobra em vários e isso lhe permite viver com aparente liberdade, embora possa ser escravo dos aplausos e do falso amor da mesma maneira que quem cria para mostrar o filho aos outros em busca de aprovação e não por amor a quem o filho pode realmente pode um dia se tornar com seu apoio e dedicação: um ser livre e autêntico.

Só existe caos na ordem porque a liberdade é inalienável na natureza da vida. Onde há prisão há a morte, matando aos poucos e lentamente todo aquele que não teve coragem de viver o seus maiores sonhos de loucura e grandeza: os seus sonhos de liberdade. Não pode haver obra sem um constante recriar de si mesmo através do trabalho de vir a ser quem se é: a eterna e refinadíssima arte de dizer não ao que não serve mais e agarrar as oportunidades assim que aparecem.

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