23 de mai de 2016

Eu te beijo através do espelho





O vento que entrou pela janela
Me sopra aos pés do ouvido
Deseja, precisa me ver.
Desde que aprendi a escutar
Já não tenho a mesma paz.

Quando à noite, em meu travesseiro
Tento deitar os pensamentos, para sonhar
Ouço os teus, mergulhados em ressentimentos
Por quê prefere se deitar no túmulo dos teus fracassos?
Não há mais vida aí, eu te garanto.

Para ser quem sou já usei mais de mil magias
Quanto mais espaço eu abro, mais fundo eu vou pra dentro
E é de lá que retiro meus pequenos tesouros
Esses que brilham diante dos teus olhos e você nem entende.

Eu poderia te levar lá pela mão
Mas você tem medo e a aperta com força
Só posso então escutar, silenciosa
Essas palavras que jamais sairão dos teus lábios
Não sem garantias.

Pura ilusão, só nos afasta.
E tua alma, essa ilustre que me visita
Pedindo cura pros teus males de amor
Não acha abrigo em você
Triste sina essa que é pairar sobre si mesma.

Poderíamos fazer uma revolução
Se não tivéssemos tanto medo da morte
E às vezes, à mera lembrança do não
Corremos assustados para a escuridão
Implorando por esquecimento.

Hoje já não há poesia
Todo mundo compra o que não pode ter
Ninguém entrega nada sem receber
Esse é o fim de quem ao invés de amar
Prefere colecionar desastres naturais.

Eu criei uma teia
Agora só me apresento quando acho necessário
Não tenho mais tempo pra me ver roubada de mim
Estou mais livre do que jamais estive
Sou escrava e amante de mim
E te beijo através do espelho.

No dia em que puder compreender o espelho
Saberá como mergulhar no oceano do meu amor
Onde cada átomo do meu ser vibra
A cada pensamento teu
E então, tua alma e eu, nos juntaremos
Como notas musicais
Para tocar o céu, como estrelas.

2 comentários:

  1. E tocará os céus, como fazem as estrelas... e tocará o ser iluminado que há dentro de ti nesse mergulho fundamental e revelador de todas as coisas.
    E quando esses pensamentos viajam, vão-se todas as frivolidades desse mundo para descortinar o belo essencial de toda natureza. Aquilo que sempre esteve latente, oculto, porém nunca ausente. E que se abre para olhos que saibam ver e enxergar além do universo para alcançar a célula primordial: a alma.
    Belo modo de dizer o que você anda perscrutando, Hel! Adorei teu poema. Uma epifânia singular. Bj grande.

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