26 de abr de 2017

FlorEser



Há não muito tempo atrás, quando comecei a dizer a mim mesma que já não gostava das flores, - e quando ainda não sabia que havia começado a me identificar como os espinhos que sabiamente a natureza havia me ofertado como forma de proteção, eu crescia adorando os espinhos. Esquecida das flores, usava adereços e jóias em formas pontiagudas e brilhantes de várias cores e tamanhos, - uma forma toda minha de me preparar para as batalhas que eu enfrentava todos os dias, lutando pra não me moldar nas fôrmas que faziam muitas outras flores parecerem todas pertencentes a uma única espécie delicada e frágil e em qual não havia espaço para o misterioso ser que havia em meu interior (e que nesse tempo eu podia apenas pressentir que existia).

Enquanto lidava com todos aqueles espinhos que se armavam em mim, enquanto me tingia de várias cores pra fantasiar sobre quem afinal eu seria; havia sempre o mesmo perfume no ar, uma fragrância que me atraía, e pelas madrugadas adentro, perdida, como uma sonâmbula, enfeitiçada, bêbada de amor, eu prosseguia (ainda sem saber que estava sendo conduzida pelo mistério do meu próprio vazio).

Então um dia, já cheia de dores, pedi por compreensão e sabedoria, bebi da seiva de uma flor que também era rainha e comecei a lembrar de onde eu vim e entendi que era preciso nascer e morrer muitas vezes se quisesse descobrir o que havia do outro lado do que eu já conhecia. Foram muitos e muitos chamados atrás daquele antigo perfume, impregnado em mim como a memória de um grande passado.

Foi numa noite de lua cheia que recuperei a antiga fala das flores e lembrei de um tempo em que haviam rainhas que honravam o seu legado e assim, pelo brilho do Ser emanado, recordavam a todos do seu íntimo reinado e que só por isso eram assim: amadas e reverenciadas.

Houve um tempo que que a Alma governava o mundo e todos por ela eram guiados em suas buscas em direção ao centro da Grande Flor, ao Coração Central onde pulsa tudo que há. Nesse tempo havia respeito por todos os seres delicados e não se negava o direito àquelas que haviam nascido para florescer distantes e protegidas dos olhares e mãos governados pelo desejo da posse e do poder e que estavam destinadas a guiar a todos por entre a escuridão do grande útero sagrado, onde todas as almas repousam até que estejam prontas para suas viagens de vida morte e vida dentro da eternidade de tudo o que simplesmente é e em direção a tudo que virá.


Foi assim que invadi o jardim da minha infância para lembrar à minha criança de sua essência e voltei da viagem impregnada daquele perfume inconfundível de flor que começa a desabrochar.

25 de out de 2016

O palácio de mil quartos



Seu coração era um palácio de ouro e jóias cravejadas de pedras preciosas, - as mais raras que você já tenha ouvido falar. Mas isso é porque essas jóias são como o néctar divino do reino mineral. Mas as jóias desse palácio não pertenciam a esse reino, eram jóias conquistadas através de vidas e vidas dedicando-se a colecionar os tesouros preciosos da alma, através de um corpo. Aliás, o corpo era então um jardim de delícias secreto, com frutos doces e suculentos além de conter prazeres profundamente misteriosos que revelavam a arte de gozar da luz do sol, da lua, das estrelas, do toque da terra, da brisa do vento e da água que acalma o excesso provocado pelo desejo que surge com o conhecimento do prazer e faz nascer com cada um frutos do amor que alimentavam aqueles que a procuravam com fome e sede. É também uma arte não se deixar seduzir pelas ilusões do desejo, é preciso não deixar escapar para fora de si essa essência que embriaga os sentidos e cria as prisões. Mas dessas prisões não vamos falar. 

Vamos falar do palácio com mil quartos, feito de ouro brilhante e reluzente como um raio de sol ao entardecer, mas que à noite fica pálido como a prata, quando banhado pela lua e as estrelas e então sente-se o frio da noite que nos embala em sonhos e profundas revelações sobre a alquimia do amor e dos espíritos gerados sem a copulação entre machos e fêmeas.

Como entender sem viver a experiência desse jardim onde hoje só se revelam fotografias criadas para retratar a sua poluição e os perigos de se entrar nele? Há tanta mentira que ninguém acredita mais em si mesmo e no poder de seu próprio coração, sente-se medo de sentir o que realmente se sente, sente-se medo de se ver, por isso chamam os espelhos refletidos de sujos e feios e não merecedores do paraíso, mas com isso todos transformam suas vidas num jardim seco e sem vida onde a flor do amor não pode nascer. E não pode haver paraíso para as almas que não aprenderam a amar, nem aqui e nem lá e nem em qualquer outro lugar.

Há uma porta nesse palácio que é por onde ela entrou. E essa porta é escura e sinuosa e emana um ar de suspense. É preciso coragem para atravessá-la pois há uma variedade grande de roedores escondidos e existe um certo pavor das criaturas que imaginamos que irão nos devorar em carne viva, - outro medo que nos colocaram à toa. Mas ela ganhou uma tocha para olhar cada canto de si mesma e conhecer toda a sua criação, e percebeu que também criou coisas muito feias porque sentia medo. Mas não vamos falar do medo.

Vamos falar de coragem. Coragem para navegar nas ondas de tudo aquilo que somos e que deixamos de ser porque nos permitirmos deixar ser o que é, com toda fúria, violência, dor, prazer e sofrimento que é o nascer verdadeiro do ser. É tudo muito perfeito nessa dança de vida e morte, de luz e escuridão, de bem e mal, de dor e prazer.

Não há o que temer quando nosso palácio é feito de luz e nos acusam de magia negra e pecado. A luz brilha e alcança espaços inatingíveis pela mente humana condicionada a não voar. Mas não vamos falar de condicionamentos.

Vamos falar de liberdade e de um palácio que não tem morada fixa pois não deita raízes sobre a terra e  assim sendo, jamais poderá ser destruído ou apagado da memória daqueles que o visitaram em qualquer tempo e mesmo aqueles que não se lembram dele poderão sentir dentro de si uma voz muito antiga a que podem até chamar de alma se assim o desejarem.

O corpo dela faz morada temporária ao abrigo dessa voz que permaneceu calada porque era o tempo de se ver quem conseguiu manter a chama do coração acesa dentro das trevas de uma lua negra e oculta de dominação e esquecimento. Seu palácio é seu coração em esferas muito mais brilhantes do que podem esses olhos cegos vislumbrar em lampejos de imaginação. Essas esferas brotam do êxtase e é somente dele que brotam e germinam as sementes da sabedoria antiga que é a arte de viver em harmonia com tudo o que há, para crescer em direção ao infinito em busca de mais criações e jardins para cultivar e gerar mais sabedoria em toda sua criação. Ela não cansa nunca de se dar à luz mergulhada nas águas escuras de onde surge toda a vida que existe, e se desdobra e se desdobra em ondas de prazer e dor para criar tudo o que há. Ela espera que cada célula de si mesma adquira a sua consciência para que unidas possam criar beleza e encantamento por onde quer que cada uma vá.

Ela sabe que a palavra não é o caminho mais curto entre as almas e conhece a importância do silêncio para a compreensão daquilo que não pode ser dito ou explicado. Não é possível entender com filosofias desencontradas que levam pelos labirintos da mente com todas as suas limitações próprias. É preciso buscar o fio que une a mente ao coração e é preciso buscar a união e não a separação. É preciso desistir de tentar ter razão, é preciso e forçoso para quem vê que é preciso deixar que cada um se afogue com as lágrimas daquilo que plantou e precisa regar, é preciso deixar que cada um se queime sozinho com as palavras de ódio e rancor proferidas por querer ter e não querer ser, por preferir esquecer a tentar lembrar. É preciso deixar que cada um aprenda como deve ser. Essa disciplina devemos a um Deus que ensina que existem dois caminhos: amor e dor. Há muito que se confundem os dois pois é do amor sentir a dor pelo outro que não ama. Mas essa é uma dor que deve passar, pois não se pode amar por quem não ama, é preciso avançar sem medo, é preciso seguir sem rumo, é preciso se dar, se doar, se entregar pois é assim a natureza do amor. Já a dor, dessa, não, não vamos falar. Por hoje estamos bem, só por hoje podemos ficar bem, já que amanhã não há.

23 de mai de 2016

Eu te beijo através do espelho





O vento que entrou pela janela
Me sopra aos pés do ouvido
Deseja, precisa me ver.
Desde que aprendi a escutar
Já não tenho a mesma paz.

Quando à noite, em meu travesseiro
Tento deitar os pensamentos, para sonhar
Ouço os teus, mergulhados em ressentimentos
Por quê prefere se deitar no túmulo dos teus fracassos?
Não há mais vida aí, eu te garanto.

Para ser quem sou já usei mais de mil magias
Quanto mais espaço eu abro, mais fundo eu vou pra dentro
E é de lá que retiro meus pequenos tesouros
Esses que brilham diante dos teus olhos e você nem entende.

Eu poderia te levar lá pela mão
Mas você tem medo e a aperta com força
Só posso então escutar, silenciosa
Essas palavras que jamais sairão dos teus lábios
Não sem garantias.

Pura ilusão, só nos afasta.
E tua alma, essa ilustre que me visita
Pedindo cura pros teus males de amor
Não acha abrigo em você
Triste sina essa que é pairar sobre si mesma.

Poderíamos fazer uma revolução
Se não tivéssemos tanto medo da morte
E às vezes, à mera lembrança do não
Corremos assustados para a escuridão
Implorando por esquecimento.

Hoje já não há poesia
Todo mundo compra o que não pode ter
Ninguém entrega nada sem receber
Esse é o fim de quem ao invés de amar
Prefere colecionar desastres naturais.

Eu criei uma teia
Agora só me apresento quando acho necessário
Não tenho mais tempo pra me ver roubada de mim
Estou mais livre do que jamais estive
Sou escrava e amante de mim
E te beijo através do espelho.

No dia em que puder compreender o espelho
Saberá como mergulhar no oceano do meu amor
Onde cada átomo do meu ser vibra
A cada pensamento teu
E então, tua alma e eu, nos juntaremos
Como notas musicais
Para tocar o céu, como estrelas.

6 de mai de 2016

**A arte de parir a si mesmo para o criar consciente**


Imagine você criando desgovernadamente filhos no mundo sem lhes dar a atenção devida, somente pelo prazer que o ato lhe causa: ver as suas obras nascidas e tão logo prontas a serem mostradas ao mundo sem qualquer outro trabalho, quer seja de refinamento, de adaptação, revisão, resignificado e reorganização. É como ver a criança com saúde com sua perfeição e alegria próprias, - estado esse não dura mais do que algumas horas sem alimento e calor, e se achar digno de sua autoria e, por isso, de mérito próprio.

Esse é o estado na pura criação mental, semelhante à um tipo de não-paternidade, aquele macho que deposita suas sementes no solo feminino, some e reaparece depois de anos reclamando o direito da paternidade ou àqueles pais que se orgulham dos filhos que criaram à sua imagem e semelhança, muitas vezes num processo de repressão de potenciais considerados perigosos à sua própria auto-imagem.  Existem casos em que a mulher nem existiu, você idealizou e não materializou, portanto, não criou nada. Reflexo de uma sociedade, já não mais restrito à questões de gênero ou sexo biológico, do desaparecimento do instinto da maternidade na criação. Maternidade requer tempo e dedicação, algo que a rapidez e a tecnologia nos fez esquecer com tantas informações e o escancaramento da necessidade de sermos vistos e ouvidos, lembrados e amados, exatamente quando éramos crianças e não éramos levados a sério por ninguém. Meros procriadores e reprodutores de conteúdos pré fabricados visando a obtenção de resultados que nos diferenciem das massas, essa entidade sem forma definida a quem ninguém mais tenta compreender de fato: será porque sem querer só mudamos de lugar na manada sem saber? Talvez tenhamos comprado coisas e casas melhores, mas estamos produzindo coisas melhores pra deixar no mundo?

A inteligência deixará em breve de ser a capacidade de acumular dados e ideias inacessíveis às demais inteligências menos adaptadas ao raciocínio, será medida pela capacidade de se auto gerir, isto é, por se manter equilibrada e estável diante de todas as demais espécies de inteligências, se manifestando tanto no plano imaterial quando co-criando no plano material. A inteligência é a mente superior que desperta para seu pleno potencial, ela já não tem necessidade de provar o que sabe ou se distanciar do que lhe soa como diferente e desprezível, ela conhece a natureza das coisas e como funciona, ela já viu isso acontecer muitas vezes, agora ela simplesmente lembrou. Lembrou também que já nem precisa dessa preocupação com o dinheiro ou status, pois tudo o que ela precisa para existir já está lhe sendo oferecido desde o primeiro dia em que nasceu. O que ela faz é desfrutar, sem se identificar com rótulos, o que vai no seu interior, ela mesma sabe, não precisa mais mostrar nem mesmo esconder, ela já não tem medo da resposta que vai dar, sabe que na hora ela virá do seu melhor lugar: de dentro.

Todos esses filhos que você colocou no mundo, agora soltos e à revelia, muitos esquecidos, borrados, apagados por não terem tido a sua dedicação em lhes mostrar seu valor, todos se lembram de quem os criou com um misto de tristeza e daquele vazio do que poderiam ter sido se por algum momento você tivesse acreditado neles e investido seu tempo em cuidar deles até que estivessem prontos para serem exibidos por seu próprio valor, e não pelo seu, por tê-los simplesmente criado, mas por ter enxergado neles a própria face do amor, uma pequena parte sua que se transformou em algo melhor e mais bonito simplesmente por ter sido amada e apreciada como deveria e por tempo suficiente para concentrar sua essência. Para ser mãe e pai de uma obra, você deve parir a si mesmo ao menos uma vez na vida. E pra renascer, precisa passar por pelo menos uma morte ainda nessa vida. Se não estiver disposto a pagar o preço, deixe pra próxima rodada, talvez daqui a mais uns milhões de anos já que em breve será convidado a resetar todo esse jogo e escolher se você vai começar do zero ou se vai partir pra outra fase, talvez mais complexa ainda à seu próprio modo, numa oitava logo acima.

Criar dessa maneira, sendo pai e mãe de si mesmo, antes de tudo, é uma outra forma de amar a você mesmo em pequenas porções de modo a permitir que seus filhos sejam livres e se expressem. Poderá produzir várias obras e até mesmo ter filhos de carne e osso, mas a tarefa deles é sempre um encontro marcado consigo mesmo. Se isso não pode acontecer, há ainda espaço para a interpretação. Esta, por si mesma, torna a pessoa livre da necessidade de dar filhos ao mundo. O personagem mesmo se desdobra em vários e isso lhe permite viver com aparente liberdade, embora possa ser escravo dos aplausos e do falso amor da mesma maneira que quem cria para mostrar o filho aos outros em busca de aprovação e não por amor a quem o filho pode realmente pode um dia se tornar com seu apoio e dedicação: um ser livre e autêntico.

Só existe caos na ordem porque a liberdade é inalienável na natureza da vida. Onde há prisão há a morte, matando aos poucos e lentamente todo aquele que não teve coragem de viver o seus maiores sonhos de loucura e grandeza: os seus sonhos de liberdade. Não pode haver obra sem um constante recriar de si mesmo através do trabalho de vir a ser quem se é: a eterna e refinadíssima arte de dizer não ao que não serve mais e agarrar as oportunidades assim que aparecem.

28 de fev de 2016

“O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Martin Luther King

Não tente ser dono da razão, é uma causa perdida. Não porque os outros estejam certos ou errados, mas porque a razão deriva de um estado mental de identificação com o pequeno eu, que é sempre limitado. Existem tantas teses, teorias, pensamentos, filosofias e formas de ver quanto existem bilhões de pessoas diferentes no planeta, porque justamente a sua haveria de ser a correta?

Entretanto, não se exaspere. Existe um espaço comum a todos aqueles que conseguiram ultrapassar os limites da mente e da própria morte. Nesse espaço cessa toda a luta e a necessidade de estar certo ou ter razão. Tudo simplesmente é. É desse espaço que nascem os mais lindos exemplos de vida que dão origem às religiões, que nada mais são do que relatos para lembrar à humanidade de seu estado natural de paz e de unidade com o Todo.

Todas as tradições contém métodos para atingir esse espaço, seja através da oração, da meditação, da concentração, da música, dentre tantas outras formas de atingir um estado superior ao da mente ordinária, que está sempre girando em torno dos mesmos temas e velhos condicionamentos.
É da própria natureza da mente produzir personalidades belicosas que lutam para impedir o novo através da força, penetrando através da fragilidade humana e estimulando nas outras os piores sentimentos e fazendo-as crerem que ao lado dessas personalidades estarão protegidas das consequências de suas próprias falhas, muitas vezes colocando um deus castigador que pune a todos os que ousam desobedecer às leis. Leis que são uma forma humana de transformar ensinamentos de seres incompreendidos em formas de controle social e de poder uns sobre os outros, visto que esse seres jamais lutaram para ter poder, mas tiveram todo o poder sobre si mesmos simplesmente por serem eles mesmos, enfrentando na maioria das vezes o status quo de sociedades marcadas pelo autoritarismo e contrárias a todo e qualquer tipo de mudanças, ou seja, enfrentando o abuso de poder desse mesmo tipo de personalidade que se apropria das ideias alheias para governar em benefício de si mesma.

Essa aproximação da religião com a política que vemos hoje no Brasil não é nenhuma novidade, é a estratégia dos que governam o mundo manipular a culpa e a escuridão da humanidade em benefício próprio. E cada defensor dessa ideologia é nada mais do que uma mente sem auto-referência que busca no outro a luz que não pode encontrar por si mesma pois ninguém jamais lhe contou que pode ser encontrada dessa maneira, nesse espaço interno onde podemos encontrar a nossa real conexão com o divino, sem intérpretes, sem tradutores, sem manipuladores.

É a mente, através da culpa empurrada pra debaixo do tapete, que cria portas e trancas para o diferente, é o medo de não ter mais certeza alguma sobre nada, é o medo de entrar nesse espaço e de repente se dar conta de que você mesmo pode ser o seu Mestre e que pode começar a ouvir o seu coração e estender a sua compaixão e amor para todos os seres viventes, até mesmo para aqueles que o atacam por não concordarem com o seu jeito de viver e de se expressar mesmo que para isso, às vezes, você precise levantar a sua voz para não permitir que te esmaguem e te partam em pedacinhos difíceis de colar de novo.

1 de dez de 2015

Deixar de acreditar é o seu próprio fim, acredite.

Fazia de tudo para evitar o contato. Qualquer coisa que a fizesse entrar em contato. Fazia malabarismos e mesmo sendo rígida, fazia até mesmo contorcionismos para desviar de coisas que já sabia sobre si mesma: Não gostava de sentir as coisas tão profundamente, achava que podia desaparecer arrastada com elas. A morte, até mesmo essa, que assusta tanta gente, era para ela como descer ou subir um degrau rumo à mesma situação, não mudaria em nada determinados fatos. Há coisas das quais não se pode fugir, nem mesmo morrendo. Talvez a verdadeira morte, pensava ela, seja enfrentar quem se é ou qualquer pensamento de antecipação dos resultados desse enfrentamento. Talvez a verdadeira morte seja encarar os fatos e a realidade de quem se é: não é possível ser outra pessoa, não é possível dar passos para trás e ficar parado exige um esforço ainda maior do que prosseguir, é cansativo fazer tanta força para parar a vida.

Sim, ela era bem doida. Enquanto fazia força para não sentir tanto, se comovia muito com as dores alheias. Parar a vida para observar o sofrimento do mundo é uma distração irresistível para quem desistiu de viver ou perdeu a esperança sobre o que fazer consigo mesmo. Exige tanta coragem seguir adiante diante dos escombros que é fácil confundir quem se vai com abandono e falta de amor. O sofrimento anseia por companhia, o sofrimento anseia por atenção, o sofrimento é carente, o sofrimento é um buraco sem fundo que vai te tragar se você não começar a andar na direção oposta agora mesmo.

Todos temos pactos secretos. Evitamos abandonar tudo aquilo que um dia nos trouxe alegria e uma sensação de que merecemos ser amados, mesmo por alguns instantes, mesmo que isso tenha nos custado a outra metade da alma: aquela que ainda acredita. E a outra metade, a que fica, é a que sente medo, afinal tudo o que depende de outro pode ser perdido a qualquer hora, é preciso ficar atento para não perder, seja lá o que for que possa substituir essa sensação de segurança que nos faz refém de alguma coisa que nem sabemos direito qual é. Isso é como um gás invisível que contamina ao ar por onde passa, faz os bons perderem a fé e deixarem que toda a esperança seja tomada de assalto, transforma  inclusive aqueles que um dia acreditaram em destruidores de sonhos alheios, é um ciclo sem fim. 

Se você não tomar de volta a sua metade que acredita, é mesmo o fim. Acredite.





21 de abr de 2012

Imagem 3D

É quando eu quero ser normal que a minha loucura se torna visível. É assim que te deixo entrever todo o mal que tentava esconder. É manter uma aparência, sustentar todo um peso, condenar a uma postura, um orgulho, um ego, um desprezo, um querer sem saber. Algo como um castelo de areia, uma ferrugem que teima em não sumir e que em breve irá consumir todo o resto.

Se te olho no olho sinto todo medo e toda fragilidade, te querer pelo querer, não sei mais se existe algo que seja bom querer ter, é sempre um encontro com o vazio, como uma placa de aviso pra buscar o que há dentro. Eu só usufruo enquanto estou.

Você é a imagem que se movimenta em 3D, a porta que me joga no espaço onde não há mais passado e nem preocupação com futuro. Não te confundo mais com chegada, não vou deitar ao seu lado e sentir que cheguei lá ou em qualquer outro lugar onde se possa ficar.

Mas agora, quando eu duvido do caminho, logo vejo em minha mente um sorriso em teus lábios macios que me espanta para longe de mim. São segundos que me transportam ao mais fundo. Sinto um calor no coração.

A ponta da tua existência arranhou meu ser quando passou.

E como conter esse pulso, esse eterno impulso, essa atração que existe em tudo, o que me permite ver o que há por detrás de teu corpo e tua mente, algo que nem você pode ver? Se meu corpo não sabe amar ou se fazer amado, se não se comporta conforme o esperado, não vou abrir mão de tentar mostrar como é afinal sentir dentro de mim.

Foi quando desisti que aprendi,  é melhor ser fiel ao que sinto porque assim não preciso de mentiras pra acreditar. Consigo mesmo e até várias vezes enxergar a magia do simples que existe quando se mata e morre a ilusão.

Se me cobrassem eu jamais pediria perdão por não ter cumprido com minha palavra. Não existe um presente maior do que um espaço no coração. Isso não se pede. Está lá. Como uma vaga que mesmo parecendo ocupada esteve sempre te esperando.

4 de dez de 2011

Quando a mente abraçou o coração e as pontes se fizeram.


"Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida.
- Ninguém, exceto tu, só tu.
Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar.
Onde leva?
Não perguntes, segue-o!"
Friedrich Nietzsche


Passara muitos e muitos anos sem se dar conta que seu autoritarismo muito mais a afastava do que a aproximava das pessoas a quem amava. Ela tinha concebido um roteiro de como seria o amor e jamais permitia sem revolta que as coisas fugissem do seu controle. Até que um dia percebeu que havia conseguido controlar tão bem a si mesma ao ponto de criar para si uma prisão que já não mais suportava. Já estava naquela posição que não lhe permitia culpar a quem quer que fosse que não a si mesma, então viu-se forçada a focar o olhar em seu interior mais uma vez, e compreendeu que não estava dando voz ao seu coração, enxergou que estava cortando fora cada pedacinho dele que insistia em crescer para fora dos limites que havia traçado para si. Quando se viu dividida assim, não teve dúvida. Carregou seu coração para longe até que ele ficasse de um tamanho que não mais conseguisse ignorar.

Ela abriu então uma porta dentro dele e podia agora, facilmente, se conectar a muitas das suas verdades mais profundas. Já não podia mais pronunciar meias verdades ou tentar enganar a quem quer que fosse. A sua própria mentira a agredia profundamente e mesmo quando ainda se enganava, não o podia mais fazer por completo, era sempre como um fio que se enroscava, algo que a incomodava. Podia agora criar pontes para ligar o seu ao coração de outros e com frequência distribuia convites para festas que dava em seu interior. Mas o coração é um lugar muito iluminado e sobretudo, repleto de sutilezas. Ele se inflama quando encontra um coração gelado, ele espera que seu calor possa levar um pouco de liberdade ao outro pois sabe que um coração gelado é sempre um coração acorrentado. Ele sempre se contorce todo em busca de um ponto de conforto que o permita esperar pelo momento do outro e, depois de certo tempo e intensidade, finalmente se retrai, no exato ponto em que a dor ameaça criar nele uma capa de proteção que ele não quer mais usar. E é sempre nesse momento que a mente escolhe tomar o comando de volta. Porque a mente sabe que um coração livre sempre vai permitir que o outro penetre nele tanto quanto possa, até machucá-lo o suficiente ao ponto que se recolha, como algumas flores delicadas se fecham à noite a fim de se protegerem do frio, não por egoísmo, mas simplesmente porque precisam sobreviver. A mente, ao se conectar ao poder do amor livre, já não mais acusa o coração por sua natureza expansiva e generosa. Ela antes o acolhe e protege das mentes que ainda acreditam na sua ilusão e querem a todo custo convencê-lo de as mentiras que criam são verdades do coração. Ela já mentira tanto a si mesma que podia agora facilmente reconhecer a mentira dos outros.

Uma mente livre do ódio e do medo trata logo de afastar o coração quando não pode se expressar com toda a sua verdade. Ela chega mesmo a pensar no caminho percorrido e se haverão no mundo outras trilhando o mesmo, ameaça querer parar, mas não pode. Quando a mente age impulsionada pelo calor poderoso do coração em busca da realização da alma, ela sabe que não pode parar, ela precisa seguir em frente mesmo quando não entenda qual o sentido. Ela sabe que existe um chamado que a norteia sempre como um farol e pode contar que nos momentos mais angustiantes sempre haverá alguém a chamando de volta para o caminho certo e então acontece algo mágico: ela perde toda a preocupação com seu destino, não há nada no mundo que deseje mais do que ser livre para se unir ao Amor Maior onde tudo simplesmente é, onde ninguém precisa acreditar ser o que não é, onde ninguém deseja ser o que não é, onde ninguém exige que outro seja mais do que já é, um lugar onde a mentira e o engano não existem porque não são possíveis, o amor que existe é tudo o que se sente e é, de fato, tudo o que se pode ter de real.

Não é perigoso andar por aí com o peito aberto quando se tem uma mente aberta, há algo de secreto e perfeito quando a alma pode simplesmente pairar por sobre o corpo, de alguma maneira incrível é como se ela estivesse sempre à frente e, de um modo invisível, comunicasse integralmente quando não é possível estabelecer o contato verdadeiro com o outro. E então, você instintivamente sabe o quanto de verdade pode doar sem prejuízo mútuo. Sim, porque a verdade é algo que poucas pessoas no mundo desejam para si, é preciso estar disposto a perder muitas coisas que você acha que é e encontrar tantas outras que você não queria ser, ao longo da sua permanente busca e transformação; é necessária muita paciência consigo mesmo para não correr nos momentos em que deve simplesmente esperar pelo próximo passo; é preciso abrir mão da ilusão de que existe um lugar no futuro onde tudo será perfeito, inclusive eu, pois há nenhum lugar de chegada e é absurdo acreditar que o destino seja a finalidade máxima dessa nossa viagem chamada vida, já que é a vida tudo o que nós temos nesse instante, escorrendo a cada segundo, jorrando a cada momento através de cada uma de nossas células e; sobretudo, é imperativo permitir que as outras pessoas possam escolher seus caminhos mesmo quando esses as levem para longe; é preciso que o amor nada exija e nada espere do outro; é preciso que o amor seja livre.

14 de jul de 2011

A armadura enferrujada

Quando ela fechou as trancas daquela armadura não imaginou que haveriam tantas consequências. Era confortável no início. Passava horas lustrando e polindo aquela imagem brilhante e protegendo a todo custo o que havia por detrás dela. O que estava por trás era muito mole, muito fino, delicado e sobretudo, frágil demais para que fosse amado e reverenciado com simplicidade. Ela não gostava de coisas simples, ao contrário, tinha pavor. Não sabia que mesmo as coisas simples têm profundidade, ela queria viver no profundo e querendo assim ela teve que ir ao fundo. Mas nesse fundo não havia espaço para criações, a passagem era estreita, requeria flexibilidade e despreocupação, nada a ver com a coragem como ela havia premeditado e com coisas que ela não tinha. Descobriu que a coragem tinha menos valor do que a fé nas coisas simples. Suas armas, seus planos, seus mapas, sua armadura não tinham vez naquele reino, era imperativo que os abandonasse se quisesse seguir adiante em busca de seus sonhos.

No início ficou chocada, levantou a sua espada com força, gritou alto. Não acreditava que não lhe seria possível seguir adiante, havia afinal trabalhado tanto, sofrido tanto, desejado tanto. Naquele reino ninguém entrava sob sacrifícios, nem torturas insensatas ou sob a força e autoridade do poder investido. Ficou sentada, caída, abismada com a situação. Sentiu que havia desperdiçado toda a sua energia em um esforço vaidoso para ser alguém que não existia e jamais seria, ela queria ser perfeita. Não haveriam mais mapas, nem manuais, nem autoridade para mandar ou obedecer, todas as regras que havia aprendido já não valiam mais, e o chão escapou dos seus pés. Então, parada diante da passagem estreita, passou a retirar a armadura. Percebeu como estava enferrujada na parte de trás, onde seus olhos não podiam tocar e que por isso não podia manter perfeita como na frente. Riu de si mesma por ter tantas vezes apontado as ferrugens nas armaduras alheias, como havia sido cega e como ainda provavelmente o era. Nesse instante pensou em como era mágico ter nas mãos o poder de enxergar coisas invisíveis e não saber utilizá-lo. Ela desejava muito retirar aquele peso de si e na realidade lembrou-se que há muito tempo atrás vinha pensando nisso, chegou a confundir o peso com o peso das responsabilidades, dos amores, das amizades, da humanidade, até seu peso na balança parecia ser o responsável, tudo lhe passava pela cabeça, tudo menos aquela armadura que há tantos anos carregava consigo.

Mas ela ainda não estava pronta. Não bastava saber, tinha que sentir e admitir internamente. Ficou com raiva de quem estava do seu lado, passou a ter dúvidas e afastou quem quer que estivesse perto. Queria se esconder, queria fugir, queria sofrer sozinha, não podia mostrar a ninguém a criança ferida que a habitava, enxergava a verdade como um sinal de fraqueza e não o contrário. Passou correndo deixando buracos nas paredes mais frágeis, até que encontrou o muro intransponível de um coração que não lhe concedeu privilégios, bateu de cabeça nele. Ficou tonta, desesperada e com pena de si. E foi depois da queda que conseguiu se dar conta de que estava se debatendo consigo mesma e ferindo aos que lhe amavam por não aceitar a si mesma desprotegida, não estava mais em nenhum tipo de luta da qual precisasse se defender, estava atacando como um cão ferido.

Quando se deu conta que não precisava mais lutar tanto foi dormir feliz, inebriada com a possibilidade de recuperar sentimentos do passado que haviam passado, ou que havia deixado passar porque não conseguia chegar muito além do que a dureza lhe permitia. Conseguiu arrancar um pedaço da armadura e o lustrou para mandar de presente a uma das pessoas mais queridas do seu passado distante. Achou que faria bem deixá-la saber que existia algo além daquela armadura falsa que havia usado por tantos anos. Mas novamente errou, porque lustrou aquele pedaço de metal que já não era seu, como se isso já bastasse para dar a conhecer de si, pobre engano. Quando acordou do desespero, quis voltar atrás mas, já havia se decidido, deixou então de se preocupar com a sua aparência e com o medo e enfrentou o fato de que estava tentando, mas que ainda não havia chegado lá. Lá. Lá onde as pessoas dizem a verdade com o coração sem medo de não serem amadas, lá onde basta ser o que se é. Mas a trajetória havia apenas começado e ela queria chegar ao final, como tudo o que sempre fazia. Nunca aproveitava a viagem, só se importava com a chegada. E quando chegava ficava decepcionada, afinal perdera o melhor: a paisagem, os companheiros da viagem, os momentos, a simplicidade e a alegria de ser. Eram palavras que ela perseguia com unhas e dentes, com a total força da mente, como se para atingir o simples houvesse uma estrada dura, longa e sofrida a ser percorrida. Chegar naquela passagem e descobrir que havia perdido tanto tempo era para ela uma grande lição, já não haviam lutas, nem guerras, nem batalhas a serem vencidas, não havia mais nada a perder, nada para ganhar ou conquistar. Sentiu paz.


7 de jun de 2011

O GRITO INTERIOR.





Sim, essa sou eu.
Escrevo com o coração. 
Não é todo mundo que entende essa linguagem estranha. 
Não se trata de possuir certa dose de intelecto ou inclinação lingüística, nem mesmo é questão de lógica ou mesmo, de interpretação. 
Escrevo para quem sente comigo e não somente para quem entende o que digo. 
E esse sentimento/entendimento tem a ver com quem é da minha tribo e mesmo não sendo,
Sabe dialogar comigo e com as diferenças que todos nos possuímos.
E sabe que são estas diferenças, as responsáveis por sermos  únicos.
E já sentiu, ou ao menos intuiu, que em alguma coisa, que é tudo menos rasa,
SOMOS TODOS IGUAIS.

O DESPERTAR COMO UM ATO DE CONSTÂNCIA NA BUSCA DE QUEM TRILHA UM CAMINHO PARALELO E CONTÍGUO DE (R)EVOLUÇÃO NATURAL DE SI (E NÃO DO OUTRO).

Passara tantos dias mergulhada em uma série de sonhos repletos de sentidos e verdades tão profundas; - verdadeiras epifanias dentro das quais conservava o vivo desejo de lembrar de tudo aquilo que via, para que quando enfim despertasse para a vida irreal a qual todos chamam de realidade, pudesse enfim entendê-los através de sua mente ávida por novidades e que sabe até mesmo retratá-los; que logo em seguida compreendeu através dos sentidos interiores, que a realidade já não passava mais do que uma camada ilusória de sua própria mente física, e por fim, acabou esquecendo dos motivos pouco nobres que a levaram a desejar tanto fugir para longe de todo o sofrimento e toda sorte de dúvidas que nela havia se alojado durante meses que lhe pareceram infindáveis. Tal desprendimento era realmente um grande oásis em meio a um emaranhado de sentimentos controversos, rancorosos e carregados de angústia e raiva, que a assolavam desde que tomara consciência da atração que exercera sobre os espelhos obscuros de si mesma, e aos quais até então chamava de falsidade e outros adjetivos pouco elevados. Aprendera por fim a reconhecer as suas próprias sombras. 

Entretanto não poderia viver naquele mundo de verdades pouco traduzíveis, era necessária grande dose de coragem para que fosse apresentada aos seus próprios fantasmas, já que a alguns deles reconhecia como seus parentes e amigos (e outros nem tão amigos assim), ao invés de frutos de sua própria limitada capacidade compreensiva (não foi apresentada a todos esses fantasmas, porque eram e são muitos, apenas aos habitantes mais antigos de sua psiquê). Conversar com eles então, e admitir que não eram e nem haviam sido reais ou que haviam sido colocados ali por outros e sim porque havia permitido e precisara que assim o fosse, foi uma tarefa lenta e demorada. Foi preciso grande dose de paciência, sua e de sua guia, doce e enérgica criatura, que interpretava e traduzia a linguagem simbólica dos espectros para a sua mente acelerada e tão desconectada de seu sentir. Era estranho olhar para trás e compreender que tudo havia sido feito como deveria, muito embora ainda fantasiasse voltar ao passado com a mente do presente para confirmar  se de fato saberia ou poderia fazer diferente. 

Aquele estranho processo poderia ser descrito como tirar de si algo que a machucava muito, mas que já estava ali a tanto tempo que se tornara parte de si mesma e que, mesmo prometendo alívio, doeria muito para ser retirado, estava unida e ligada àquela dor. Era ainda, como um curativo aderido a pele já parcialmente cicatrizada, seria impossível encontrar a cura sem retirá-lo e seria igualmente impossível não abrir uma nova ferida para dar espaço a uma pele sadia. Era enfim, um senso de identidade distorcido, um ego lutando para permanecer vivo. Mas o apego e o medo da dor lentamente deram lugar a um extraordinário impulso pela conquista da liberdade, arrancaria a pele se essa pudesse afastá-la mais uma vez do seu impulso de voar cada vez mais fundo dentro de si mesma em busca de um novo caminho, de uma nova direção, da desconstrução completa de todas as crenças e descrenças que não faziam parte de sua essência primária. Por isso ela escolheu  fugir e só retornaria quando tivesse certezas, arrancando de si tudo o que pudesse para não mais impedir o seu perfeito existir.  Cada pedaço retirado, cada parte de si da qual abria mão, cada pequena ferida reaberta em nome da liberdade lhe traziam a leveza de espírito que então já não era insustentável e sim, absolutamente desejável. 

Quando por fim terminou a parte do processo que podia ser concluída em reclusão, voltou à vida para dela não mais fugir e descobriu a energia necessária para seguir adiante.

É grande o medo e a dor quando se escolhe o caminho que leva pra dentro de si e não para longe através da cultura, do materialismo, das pessoas e das ilusões que o ego promove com tamanha engenhosidade; mas essa grandeza é superada pelos opostos da coragem e do prazer de escolher a vida e a transformação que a natureza oferece a cada momento, a cada escolha que libera mais e mais de nós mesmos, impregnando de sentido uma vida que antes era apenas um eco de perguntas sem respostas. 

É uma viagem solitária na qual encontram-se poucos, porém valiosos amigos ao longo do trajeto, e nos momentos de escuridão basta parar o mundo e deixar passar os vagalhões da alma, que vive com profundidade assombrosa, para novamente sentir os raios dos vários sóis para os quais somos atraídos em função de nossa própria vibração conforme vamos adentrando mais e mais profundamente dentro de nós mesmos em busca de algo que só conheceremos plenamente quando já não formos mais um eu, mas o nós, o todo. 

Mais alguns mergulhos pra dentro e mais fundo e torna-se possível perceber que nada do que você faça poderá te fazer ser melhor que o outro, você só pode ser você mesmo. Aliás, tudo o que te resta é ser você mesmo e despertar continuamente para tudo aquilo que não é. E aí aquele sonho ingênuo, autoritário e arrogante de mudar o mundo através da força cede espaço ao sonho de mudar você mesmo a cada dia com força para aceitar e reconhecer a si e ao outro tal como é, e não como a sua bagagem cultural permite enxergar.