9 de fev de 2010

Predadores não podem ser domesticados


   E ela não se fez de rogada. Levantou, calçou suas botas e abriu aquelas portas que davam para a rua sem nem pensar em voltar atrás por sequer um segundo.
   Deixou naquela casa todos aqueles pertences que ganhou de presente e que, com aquelas palavras que ecoavam em sua mente, não eram nada mais do que o pagamento por todos os dias em que se entregou àquele amor doentio.Poderia recomeçar de qualquer ponto tendo a sua liberdade de volta mas não permitiria jamais que arrancassem as suas asas e a transformassem em um passarinho domesticado. Não uma mulher como aquela.
   Há assim, pessoas que aceitam viver como passarinhos tendo uma alma de predador. Em troca de segurança e proteção deixam-se viver sob os domínios de outras de modo que sua real natureza é vista como algo a ser escondido, controlado, negado enfim. E se mesmo um passarinho, acostumado com a liberdade, sofre de apatia quando trancafiado em uma gaiola que o priva dessa liberdade de ser, de ir e vir, o que se dá quando trancamos um ave selvagem por natureza? 
   Com cuidado ela pode muito bem se conformar e criar laços com seus cuidadores, mas não faltarão oportunidades para que demonstre a sua agressividade e essa violência será considerada inoportuna e contrária por quem a enxerga à primeira vista.
   Acontece que essa ave tem instintos e e estes tem funções dentro do seu ambiente natural. Uma ave de rapina muitas vezes é descrita como inimiga natural de outros pássaros por serem suas predadoras mas o que poucos sabem (e nem buscam saber) é que são essas aves responsáveis pela proteção de seus próprios ninhos e dos ninhos de todos os pássaros vizinhos de modo incidental. Assim, mesmo para uma presa, é útil construir o seu ninho ao lado de uma ave predadora pois esta sem querer acaba afugentando outros animais. Não há nada de errado em ser selvagem se você está dentro do seu ambiente natural, o que está no mínimo deslocado é viver falsamente como um pássaro doméstico e ter crises violentas de identidade para com as pessoas que acham que estão fazendo o melhor por você e no fundo você está a enganar a si e aos outros.
   Não podemos viver afastados de nossa real natureza sem pagar o preço de sermos qualquer coisa menos nós mesmos e mesmo assim, entre rompantes de fúria desse eu que fica aprisionado na gaiola do medo, do conformismo, da auto-comiseração e da piedade.
  E foi dessa forma que ela partiu, com a roupa do corpo, mas com a sensação de que o mundo lhe pertencia e que podia finalmente traçar o seu próprio caminho.Para onde esse caminho a levaria ela ainda não tinha certeza, mas sabia que só assim poderia viver com a liberdade que sua natureza exigia.