14 de jun de 2010

Todo o peso do mundo

 "Nunca se pode concordar em rastejar, quando se sente ímpeto de voar." 
(Helen Keller)

Acordou e foi ao banheiro, lavou o rosto, escovou os dentes e olhou-se no espelho. Tudo teria sido exatamente tal qual sua rotina, não fossem seus olhos.

Viu-se no espelho e admitiu que aquele olhar, tão perdido e distraído, tão descrente e despercebido, já não era mais assim. Era agora um olhar profundo, um pouco melancólico talvez, mas definitivamente, um olhar menos raso e mais observador e muito, muito mais direto. Olhou para si e, tomada de assalto, subitamente teve um surto de lucidez que a modificou de maneira intensa e sobretudo, assustadora.

Naquele dia, percebeu que não poderia mais levar a vida do mesmo modo. Não somente por não assim o desejar, mas também porque simplesmente não era algo possível de ser realizado. Não poderia abrir os olhos e agir mecanicamente como havia se acostumado a fazer, por repetição, por condicionamento, por educação, pela vida que levava, pela opinião dos que lhe eram importantes, pela crítica de quem que acreditava não merecer a sua consideração, por apatia ou mesmo pela falta de fé que lhe acometia com frequência.

Já não poderia apontar os culpados para todos os seus frustrados e não concretizados desejos de ser, de ter, de fazer, pensar e sentir, sem lembrar-se daquela imagem que enxergara no espelho, tão bem refletida em suas pupilas.

Sentiu um peso do tamanho do mundo lhe sair das costas e por instantes desejou que pudesse voltar atrás. Sua espinha havia se conformado àquele peso, mas não haveria como, uma vez que não mais lhe cabia carregar aquele fardo pesado que tantos outros carregam, talvez sem notar que possuem o mesmo poder de escolha.

Aquela leveza era tanta, mas tanta, que se sentiu muito solitária, flutuando sobre todo o resto, que agora não parecia mais ter a mesma importância de antes. E perguntou-se então, se aquilo não a faria afastar-se dos que amava. Desesperou-se diante do panorama traçado. De repente, soube tão bem compreender por que é tão mais fácil optar pelo caminho desgastado das multidões que o seguem pela tradição e companhia dos demais. Padecer junto a milhares parece mais confortável do que viver isoladamente em um mundo onde se bem sabe qual a parcela de contribuição negativa que nos faz colher bem menos do que imaginamos merecer.

E iniciou-se então uma nova busca. Se não poderia mais seguir aquele caminho, para onde se dirigiria? Não gostaria de viver só. Haveria de escolher entre as pessoas as que fossem capazes de caminhar ao seu lado? Não, pois era mesquinho demais. Depois de muitas flutuações e alguns vôos distantes, depois de algumas quedas e te ter-se perdido por não saber em que direção prosseguir, parou de tanto remoer aqueles pensamentos todos que emergiam de sua mente sem qualquer tipo de controle ou censura.

Decidiu que trilharia um caminho diferente, mas estabeleceu que o traçaria próximo o bastante do caminho dos que amava para que pudesse mantê-los sob suas vistas e oferecer-lhes a mão e os ouvidos toda vez que caíssem e se desesperassem e também, é claro, para receber deles um abraço e palavras de conforto quando sentisse que a responsabilidade que havia tomado para si era maior do que poderia suportar. Sabia que seus conselhos seriam ignorados tantas vezes quanto fossem oferecidos. Sabia que mesmo que arrancasse aqueles olhos não os poderia emprestar para que enxergassem que haviam vários outros caminhos e que cada um poderia traçar o seu próprio. E, ao abrir mão de querer conduzir consigo aos que tanto amava, pôde então lhes dar algo muito mais valioso e útil: a liberdade.