4 de dez de 2011

Quando a mente abraçou o coração e as pontes se fizeram.


"Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida.
- Ninguém, exceto tu, só tu.
Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar.
Onde leva?
Não perguntes, segue-o!"
Friedrich Nietzsche


Passara muitos e muitos anos sem se dar conta que seu autoritarismo muito mais a afastava do que a aproximava das pessoas a quem amava. Ela tinha concebido um roteiro de como seria o amor e jamais permitia sem revolta que as coisas fugissem do seu controle. Até que um dia percebeu que havia conseguido controlar tão bem a si mesma ao ponto de criar para si uma prisão que já não mais suportava. Já estava naquela posição que não lhe permitia culpar a quem quer que fosse que não a si mesma, então viu-se forçada a focar o olhar em seu interior mais uma vez, e compreendeu que não estava dando voz ao seu coração, enxergou que estava cortando fora cada pedacinho dele que insistia em crescer para fora dos limites que havia traçado para si. Quando se viu dividida assim, não teve dúvida. Carregou seu coração para longe até que ele ficasse de um tamanho que não mais conseguisse ignorar.

Ela abriu então uma porta dentro dele e podia agora, facilmente, se conectar a muitas das suas verdades mais profundas. Já não podia mais pronunciar meias verdades ou tentar enganar a quem quer que fosse. A sua própria mentira a agredia profundamente e mesmo quando ainda se enganava, não o podia mais fazer por completo, era sempre como um fio que se enroscava, algo que a incomodava. Podia agora criar pontes para ligar o seu ao coração de outros e com frequência distribuia convites para festas que dava em seu interior. Mas o coração é um lugar muito iluminado e sobretudo, repleto de sutilezas. Ele se inflama quando encontra um coração gelado, ele espera que seu calor possa levar um pouco de liberdade ao outro pois sabe que um coração gelado é sempre um coração acorrentado. Ele sempre se contorce todo em busca de um ponto de conforto que o permita esperar pelo momento do outro e, depois de certo tempo e intensidade, finalmente se retrai, no exato ponto em que a dor ameaça criar nele uma capa de proteção que ele não quer mais usar. E é sempre nesse momento que a mente escolhe tomar o comando de volta. Porque a mente sabe que um coração livre sempre vai permitir que o outro penetre nele tanto quanto possa, até machucá-lo o suficiente ao ponto que se recolha, como algumas flores delicadas se fecham à noite a fim de se protegerem do frio, não por egoísmo, mas simplesmente porque precisam sobreviver. A mente, ao se conectar ao poder do amor livre, já não mais acusa o coração por sua natureza expansiva e generosa. Ela antes o acolhe e protege das mentes que ainda acreditam na sua ilusão e querem a todo custo convencê-lo de as mentiras que criam são verdades do coração. Ela já mentira tanto a si mesma que podia agora facilmente reconhecer a mentira dos outros.

Uma mente livre do ódio e do medo trata logo de afastar o coração quando não pode se expressar com toda a sua verdade. Ela chega mesmo a pensar no caminho percorrido e se haverão no mundo outras trilhando o mesmo, ameaça querer parar, mas não pode. Quando a mente age impulsionada pelo calor poderoso do coração em busca da realização da alma, ela sabe que não pode parar, ela precisa seguir em frente mesmo quando não entenda qual o sentido. Ela sabe que existe um chamado que a norteia sempre como um farol e pode contar que nos momentos mais angustiantes sempre haverá alguém a chamando de volta para o caminho certo e então acontece algo mágico: ela perde toda a preocupação com seu destino, não há nada no mundo que deseje mais do que ser livre para se unir ao Amor Maior onde tudo simplesmente é, onde ninguém precisa acreditar ser o que não é, onde ninguém deseja ser o que não é, onde ninguém exige que outro seja mais do que já é, um lugar onde a mentira e o engano não existem porque não são possíveis, o amor que existe é tudo o que se sente e é, de fato, tudo o que se pode ter de real.

Não é perigoso andar por aí com o peito aberto quando se tem uma mente aberta, há algo de secreto e perfeito quando a alma pode simplesmente pairar por sobre o corpo, de alguma maneira incrível é como se ela estivesse sempre à frente e, de um modo invisível, comunicasse integralmente quando não é possível estabelecer o contato verdadeiro com o outro. E então, você instintivamente sabe o quanto de verdade pode doar sem prejuízo mútuo. Sim, porque a verdade é algo que poucas pessoas no mundo desejam para si, é preciso estar disposto a perder muitas coisas que você acha que é e encontrar tantas outras que você não queria ser, ao longo da sua permanente busca e transformação; é necessária muita paciência consigo mesmo para não correr nos momentos em que deve simplesmente esperar pelo próximo passo; é preciso abrir mão da ilusão de que existe um lugar no futuro onde tudo será perfeito, inclusive eu, pois há nenhum lugar de chegada e é absurdo acreditar que o destino seja a finalidade máxima dessa nossa viagem chamada vida, já que é a vida tudo o que nós temos nesse instante, escorrendo a cada segundo, jorrando a cada momento através de cada uma de nossas células e; sobretudo, é imperativo permitir que as outras pessoas possam escolher seus caminhos mesmo quando esses as levem para longe; é preciso que o amor nada exija e nada espere do outro; é preciso que o amor seja livre.

14 de jul de 2011

A armadura enferrujada

Quando ela fechou as trancas daquela armadura não imaginou que haveriam tantas consequências. Era confortável no início. Passava horas lustrando e polindo aquela imagem brilhante e protegendo a todo custo o que havia por detrás dela. O que estava por trás era muito mole, muito fino, delicado e sobretudo, frágil demais para que fosse amado e reverenciado com simplicidade. Ela não gostava de coisas simples, ao contrário, tinha pavor. Não sabia que mesmo as coisas simples têm profundidade, ela queria viver no profundo e querendo assim ela teve que ir ao fundo. Mas nesse fundo não havia espaço para criações, a passagem era estreita, requeria flexibilidade e despreocupação, nada a ver com a coragem como ela havia premeditado e com coisas que ela não tinha. Descobriu que a coragem tinha menos valor do que a fé nas coisas simples. Suas armas, seus planos, seus mapas, sua armadura não tinham vez naquele reino, era imperativo que os abandonasse se quisesse seguir adiante em busca de seus sonhos.

No início ficou chocada, levantou a sua espada com força, gritou alto. Não acreditava que não lhe seria possível seguir adiante, havia afinal trabalhado tanto, sofrido tanto, desejado tanto. Naquele reino ninguém entrava sob sacrifícios, nem torturas insensatas ou sob a força e autoridade do poder investido. Ficou sentada, caída, abismada com a situação. Sentiu que havia desperdiçado toda a sua energia em um esforço vaidoso para ser alguém que não existia e jamais seria, ela queria ser perfeita. Não haveriam mais mapas, nem manuais, nem autoridade para mandar ou obedecer, todas as regras que havia aprendido já não valiam mais, e o chão escapou dos seus pés. Então, parada diante da passagem estreita, passou a retirar a armadura. Percebeu como estava enferrujada na parte de trás, onde seus olhos não podiam tocar e que por isso não podia manter perfeita como na frente. Riu de si mesma por ter tantas vezes apontado as ferrugens nas armaduras alheias, como havia sido cega e como ainda provavelmente o era. Nesse instante pensou em como era mágico ter nas mãos o poder de enxergar coisas invisíveis e não saber utilizá-lo. Ela desejava muito retirar aquele peso de si e na realidade lembrou-se que há muito tempo atrás vinha pensando nisso, chegou a confundir o peso com o peso das responsabilidades, dos amores, das amizades, da humanidade, até seu peso na balança parecia ser o responsável, tudo lhe passava pela cabeça, tudo menos aquela armadura que há tantos anos carregava consigo.

Mas ela ainda não estava pronta. Não bastava saber, tinha que sentir e admitir internamente. Ficou com raiva de quem estava do seu lado, passou a ter dúvidas e afastou quem quer que estivesse perto. Queria se esconder, queria fugir, queria sofrer sozinha, não podia mostrar a ninguém a criança ferida que a habitava, enxergava a verdade como um sinal de fraqueza e não o contrário. Passou correndo deixando buracos nas paredes mais frágeis, até que encontrou o muro intransponível de um coração que não lhe concedeu privilégios, bateu de cabeça nele. Ficou tonta, desesperada e com pena de si. E foi depois da queda que conseguiu se dar conta de que estava se debatendo consigo mesma e ferindo aos que lhe amavam por não aceitar a si mesma desprotegida, não estava mais em nenhum tipo de luta da qual precisasse se defender, estava atacando como um cão ferido.

Quando se deu conta que não precisava mais lutar tanto foi dormir feliz, inebriada com a possibilidade de recuperar sentimentos do passado que haviam passado, ou que havia deixado passar porque não conseguia chegar muito além do que a dureza lhe permitia. Conseguiu arrancar um pedaço da armadura e o lustrou para mandar de presente a uma das pessoas mais queridas do seu passado distante. Achou que faria bem deixá-la saber que existia algo além daquela armadura falsa que havia usado por tantos anos. Mas novamente errou, porque lustrou aquele pedaço de metal que já não era seu, como se isso já bastasse para dar a conhecer de si, pobre engano. Quando acordou do desespero, quis voltar atrás mas, já havia se decidido, deixou então de se preocupar com a sua aparência e com o medo e enfrentou o fato de que estava tentando, mas que ainda não havia chegado lá. Lá. Lá onde as pessoas dizem a verdade com o coração sem medo de não serem amadas, lá onde basta ser o que se é. Mas a trajetória havia apenas começado e ela queria chegar ao final, como tudo o que sempre fazia. Nunca aproveitava a viagem, só se importava com a chegada. E quando chegava ficava decepcionada, afinal perdera o melhor: a paisagem, os companheiros da viagem, os momentos, a simplicidade e a alegria de ser. Eram palavras que ela perseguia com unhas e dentes, com a total força da mente, como se para atingir o simples houvesse uma estrada dura, longa e sofrida a ser percorrida. Chegar naquela passagem e descobrir que havia perdido tanto tempo era para ela uma grande lição, já não haviam lutas, nem guerras, nem batalhas a serem vencidas, não havia mais nada a perder, nada para ganhar ou conquistar. Sentiu paz.


7 de jun de 2011

O GRITO INTERIOR.





Sim, essa sou eu.
Escrevo com o coração. 
Não é todo mundo que entende essa linguagem estranha. 
Não se trata de possuir certa dose de intelecto ou inclinação lingüística, nem mesmo é questão de lógica ou mesmo, de interpretação. 
Escrevo para quem sente comigo e não somente para quem entende o que digo. 
E esse sentimento/entendimento tem a ver com quem é da minha tribo e mesmo não sendo,
Sabe dialogar comigo e com as diferenças que todos nos possuímos.
E sabe que são estas diferenças, as responsáveis por sermos  únicos.
E já sentiu, ou ao menos intuiu, que em alguma coisa, que é tudo menos rasa,
SOMOS TODOS IGUAIS.

O DESPERTAR COMO UM ATO DE CONSTÂNCIA NA BUSCA DE QUEM TRILHA UM CAMINHO PARALELO E CONTÍGUO DE (R)EVOLUÇÃO NATURAL DE SI (E NÃO DO OUTRO).

Passara tantos dias mergulhada em uma série de sonhos repletos de sentidos e verdades tão profundas; - verdadeiras epifanias dentro das quais conservava o vivo desejo de lembrar de tudo aquilo que via, para que quando enfim despertasse para a vida irreal a qual todos chamam de realidade, pudesse enfim entendê-los através de sua mente ávida por novidades e que sabe até mesmo retratá-los; que logo em seguida compreendeu através dos sentidos interiores, que a realidade já não passava mais do que uma camada ilusória de sua própria mente física, e por fim, acabou esquecendo dos motivos pouco nobres que a levaram a desejar tanto fugir para longe de todo o sofrimento e toda sorte de dúvidas que nela havia se alojado durante meses que lhe pareceram infindáveis. Tal desprendimento era realmente um grande oásis em meio a um emaranhado de sentimentos controversos, rancorosos e carregados de angústia e raiva, que a assolavam desde que tomara consciência da atração que exercera sobre os espelhos obscuros de si mesma, e aos quais até então chamava de falsidade e outros adjetivos pouco elevados. Aprendera por fim a reconhecer as suas próprias sombras. 

Entretanto não poderia viver naquele mundo de verdades pouco traduzíveis, era necessária grande dose de coragem para que fosse apresentada aos seus próprios fantasmas, já que a alguns deles reconhecia como seus parentes e amigos (e outros nem tão amigos assim), ao invés de frutos de sua própria limitada capacidade compreensiva (não foi apresentada a todos esses fantasmas, porque eram e são muitos, apenas aos habitantes mais antigos de sua psiquê). Conversar com eles então, e admitir que não eram e nem haviam sido reais ou que haviam sido colocados ali por outros e sim porque havia permitido e precisara que assim o fosse, foi uma tarefa lenta e demorada. Foi preciso grande dose de paciência, sua e de sua guia, doce e enérgica criatura, que interpretava e traduzia a linguagem simbólica dos espectros para a sua mente acelerada e tão desconectada de seu sentir. Era estranho olhar para trás e compreender que tudo havia sido feito como deveria, muito embora ainda fantasiasse voltar ao passado com a mente do presente para confirmar  se de fato saberia ou poderia fazer diferente. 

Aquele estranho processo poderia ser descrito como tirar de si algo que a machucava muito, mas que já estava ali a tanto tempo que se tornara parte de si mesma e que, mesmo prometendo alívio, doeria muito para ser retirado, estava unida e ligada àquela dor. Era ainda, como um curativo aderido a pele já parcialmente cicatrizada, seria impossível encontrar a cura sem retirá-lo e seria igualmente impossível não abrir uma nova ferida para dar espaço a uma pele sadia. Era enfim, um senso de identidade distorcido, um ego lutando para permanecer vivo. Mas o apego e o medo da dor lentamente deram lugar a um extraordinário impulso pela conquista da liberdade, arrancaria a pele se essa pudesse afastá-la mais uma vez do seu impulso de voar cada vez mais fundo dentro de si mesma em busca de um novo caminho, de uma nova direção, da desconstrução completa de todas as crenças e descrenças que não faziam parte de sua essência primária. Por isso ela escolheu  fugir e só retornaria quando tivesse certezas, arrancando de si tudo o que pudesse para não mais impedir o seu perfeito existir.  Cada pedaço retirado, cada parte de si da qual abria mão, cada pequena ferida reaberta em nome da liberdade lhe traziam a leveza de espírito que então já não era insustentável e sim, absolutamente desejável. 

Quando por fim terminou a parte do processo que podia ser concluída em reclusão, voltou à vida para dela não mais fugir e descobriu a energia necessária para seguir adiante.

É grande o medo e a dor quando se escolhe o caminho que leva pra dentro de si e não para longe através da cultura, do materialismo, das pessoas e das ilusões que o ego promove com tamanha engenhosidade; mas essa grandeza é superada pelos opostos da coragem e do prazer de escolher a vida e a transformação que a natureza oferece a cada momento, a cada escolha que libera mais e mais de nós mesmos, impregnando de sentido uma vida que antes era apenas um eco de perguntas sem respostas. 

É uma viagem solitária na qual encontram-se poucos, porém valiosos amigos ao longo do trajeto, e nos momentos de escuridão basta parar o mundo e deixar passar os vagalhões da alma, que vive com profundidade assombrosa, para novamente sentir os raios dos vários sóis para os quais somos atraídos em função de nossa própria vibração conforme vamos adentrando mais e mais profundamente dentro de nós mesmos em busca de algo que só conheceremos plenamente quando já não formos mais um eu, mas o nós, o todo. 

Mais alguns mergulhos pra dentro e mais fundo e torna-se possível perceber que nada do que você faça poderá te fazer ser melhor que o outro, você só pode ser você mesmo. Aliás, tudo o que te resta é ser você mesmo e despertar continuamente para tudo aquilo que não é. E aí aquele sonho ingênuo, autoritário e arrogante de mudar o mundo através da força cede espaço ao sonho de mudar você mesmo a cada dia com força para aceitar e reconhecer a si e ao outro tal como é, e não como a sua bagagem cultural permite enxergar. 




9 de fev de 2011

Minhas impressões sobre Cisne Negro


NÃO LEIA SE VOCÊ AINDA PRETENDE ASSISTIR E NÃO QUER SABER DETALHES SOBRE O FINAL DO FILME!

Nesse fim de semana tive a chance de assistir ao filme "Cisne Negro" e fiquei simplesmente maravilhada com tudo, desde a história até a incrível atuação da Natalie Portman, que encarna a bailarina Nina e que literalmente sofre uma transformação ao longo da narrativa.

Acredito que o filme não vá agradar a todo tipo de platéia, não é daqueles filmes que emocionam pela história. A beleza do filme está em seus detalhes, nas sutilezas que podem passar despercebidas aos olhos e ouvidos do espectador. Gostei muito das cenas nas quais a câmera se aproxima das sapatilhas e capta o som dos movimentos feitos nas pontas dos dedos, esses sons me causaram uma sensação de angústia e tensão impressionante nos momentos em que ela ensaiava freneticamente. Quando Nina machucou o pé senti como se aquilo tivesse acontecido comigo mesma, mesmo depois de alguns minutos de filme eu só conseguia pensar naquela sensação de dor enquanto assistia àquela bailarina sofredora a quem a dor física era a última coisa a importar. As cena nas quais a sua pele sangra, perfurada pela penugem negra que emerge e as pernas que dobram e contorcem traçando o contorno das pernas do cisne negro que lhe completa a mudança intíma são impressionantes.

Mais do que uma história de uma bailarina em busca da perfeição, pude assistir a um espetáculo de drama psicológico que conversou intimamente com o meu ser. Nina vivia uma história de separação. A história da separação de seu próprio eu. Perdida em meio ao ambiente infantil e à superproteção que sua mãe lhe proporciona, Nina é frágil, submissa, disciplinada, obstinada, fria e extremamente reprimida, fatos esses que colocam em evidência a sua incompletude para dar vida simultânea aos gêmeos cisnes branco e negro, ou seja, de ser um ser completo. Nina é pura, virginal, graciosa e técnica e é portanto, perfeita para encarnar o Cisne Branco. Porém é fria, reprimida sexualmente e não se permite simplesmente se deixar levar pelas emoções. Um detalhe que pode passar despercebido é a estranha coceira que a aflige ao longo do filme. É interessante perceber que ela começa logo após o sonho que ela teve interpretando o Cisne Negro, mesmo antes dela saber que a bailarina principal deixaria vago o seu trono. Mesmo quando ela não se arranha aquele ferimento nas suas costas só aumenta, o que mais poderia ser do que a somatização de sua insatisfação consigo mesma e a emergência da necessidade de resgatar o seu verdadeiro estado de ser? A mudança já estava implantada. Nina estava infeliz com seu papel de moça comportada, estava cansada dele. Deixando de lado os detalhes da loucura que a acomete em meio à essa jornada para encarnar ambos os papéis, o que para mim só torna o filme mais interessante à medida em que se percebe que a sua loucura só existe em sua mente e que os seus problemas com a mãe e a bailarina que ameaça tomar seu lugar estavam sendo plenamente vividos dentro dela mesma, penso como determinadas pessoas acabam surgindo em nossas vidas de maneira absolutamente projetiva, isto é, aquelas pessoas que a cercavam, como a bailarina principal aposentada, a bailarina sexy, o diretor e a sua própria mãe, como ela as enxergava (e por sua vez, nós que a assistíamos através de seus olhos) eram apenas projeções de sua inveja, culpa, desejo e sofrimento. Ela não está completamente louca, aqueles fatos são reais dentro de sua mente e quando ela desperta de suas alucinações tem a chance de ter consciência de que está em luta consigo mesma e que aqueles sentimentos de perseguição são fruto de sua própria imaginação, de seu próprio medo. Ela iniciou o seu processo de transformação, motivada pelo motor de busca da perfeição, e ela irá até o final dos seus limites humanos para incorporar a si o seu próprio lado obscuro e interpretar o Cisne Negro e por fim, se livrar daquele pele antiga de boa moça; por isso ela se coça, se arranha, se machuca e fere a si mesma de modo mortal. Trata-se de uma busca desesperada pela completude do ser: a união perfeita entre o branco e o negro, entre a pureza e o prazer de ser.

Como o filme todo se passa através de seu olhar, a mim me parece que a sua morte trágica ao final do filme nada mais é do que mais uma metáfora da mudança que ocorre em seu interior. Natalie simplesmente se transfigura ao longo do filme e é impressionante perceber como o seu olhar se torna vibrante e absolutamente repleto, energético, misterioso e febril quando ela dança o Cisne Negro. Eu, que ao longo do filme tinha vontade de dar uns tapas na cara dela por conta daquelas suas expressões infindáveis de sofrimento, apatia e fraqueza, simplesmente fiquei boquiaberta quando observei essa modificação absolutamente arrasadora, sobretudo em seu olhar.

A algumas pessoas essa minha compreensão do filme pode parecer tão surreal quanto o próprio, o que só confirma a minha compreensão de que as pessoas simplesmente respondem de modo diferente aos mesmos estímulos, interpretando fatos, situações, ações e pessoas de acordo com a sua própria realidade interior.
Sem dúvidas, para mim, esse é o filme mais bonito e dramático desde que adotei " Réquiem para um Sonho " como um dos meus filmes preferidos e a Natalie merece muito ganhar o Oscar pela sua atuação, que é simplesmente fantástica.

É incrível perceber como a arte imita a vida de um modo tão delicado e ao mesmo tempo, tão forte, ao ponto de permitir que ela mesma extravase os limites que quem a cria, aderindo e se encaixando de modo tão perfeito nas experiências de vida de quem a experimenta ou sendo repelida e ignorada prontamente por quem não a vive de maneira igual ou semelhante. É como uma linguagem misteriosa que só pode ser compreendida por quem algum dia a aprendeu e mesmo que a tenha esquecido, tocará de alguma forma a sua realidade, gerando, por sua vez, outros infindáveis dialetos.

PS: Fiquei sabendo hoje que o diretor desse filme, Darren Aronofsky, é o mesmo diretor de Réquiem para um Sonho, pretendo agora assistir aos demais filmes dele para conferir se são tão bons quanto esses.