25 de out de 2016

O palácio de mil quartos



Seu coração era um palácio de ouro e jóias cravejadas de pedras preciosas, - as mais raras que você já tenha ouvido falar. Mas isso é porque essas jóias são como o néctar divino do reino mineral. Mas as jóias desse palácio não pertenciam a esse reino, eram jóias conquistadas através de vidas e vidas dedicando-se a colecionar os tesouros preciosos da alma, através de um corpo. Aliás, o corpo era então um jardim de delícias secreto, com frutos doces e suculentos além de conter prazeres profundamente misteriosos que revelavam a arte de gozar da luz do sol, da lua, das estrelas, do toque da terra, da brisa do vento e da água que acalma o excesso provocado pelo desejo que surge com o conhecimento do prazer e faz nascer com cada um frutos do amor que alimentavam aqueles que a procuravam com fome e sede. É também uma arte não se deixar seduzir pelas ilusões do desejo, é preciso não deixar escapar para fora de si essa essência que embriaga os sentidos e cria as prisões. Mas dessas prisões não vamos falar. 

Vamos falar do palácio com mil quartos, feito de ouro brilhante e reluzente como um raio de sol ao entardecer, mas que à noite fica pálido como a prata, quando banhado pela lua e as estrelas e então sente-se o frio da noite que nos embala em sonhos e profundas revelações sobre a alquimia do amor e dos espíritos gerados sem a copulação entre machos e fêmeas.

Como entender sem viver a experiência desse jardim onde hoje só se revelam fotografias criadas para retratar a sua poluição e os perigos de se entrar nele? Há tanta mentira que ninguém acredita mais em si mesmo e no poder de seu próprio coração, sente-se medo de sentir o que realmente se sente, sente-se medo de se ver, por isso chamam os espelhos refletidos de sujos e feios e não merecedores do paraíso, mas com isso todos transformam suas vidas num jardim seco e sem vida onde a flor do amor não pode nascer. E não pode haver paraíso para as almas que não aprenderam a amar, nem aqui e nem lá e nem em qualquer outro lugar.

Há uma porta nesse palácio que é por onde ela entrou. E essa porta é escura e sinuosa e emana um ar de suspense. É preciso coragem para atravessá-la pois há uma variedade grande de roedores escondidos e existe um certo pavor das criaturas que imaginamos que irão nos devorar em carne viva, - outro medo que nos colocaram à toa. Mas ela ganhou uma tocha para olhar cada canto de si mesma e conhecer toda a sua criação, e percebeu que também criou coisas muito feias porque sentia medo. Mas não vamos falar do medo.

Vamos falar de coragem. Coragem para navegar nas ondas de tudo aquilo que somos e que deixamos de ser porque nos permitirmos deixar ser o que é, com toda fúria, violência, dor, prazer e sofrimento que é o nascer verdadeiro do ser. É tudo muito perfeito nessa dança de vida e morte, de luz e escuridão, de bem e mal, de dor e prazer.

Não há o que temer quando nosso palácio é feito de luz e nos acusam de magia negra e pecado. A luz brilha e alcança espaços inatingíveis pela mente humana condicionada a não voar. Mas não vamos falar de condicionamentos.

Vamos falar de liberdade e de um palácio que não tem morada fixa pois não deita raízes sobre a terra e  assim sendo, jamais poderá ser destruído ou apagado da memória daqueles que o visitaram em qualquer tempo e mesmo aqueles que não se lembram dele poderão sentir dentro de si uma voz muito antiga a que podem até chamar de alma se assim o desejarem.

O corpo dela faz morada temporária ao abrigo dessa voz que permaneceu calada porque era o tempo de se ver quem conseguiu manter a chama do coração acesa dentro das trevas de uma lua negra e oculta de dominação e esquecimento. Seu palácio é seu coração em esferas muito mais brilhantes do que podem esses olhos cegos vislumbrar em lampejos de imaginação. Essas esferas brotam do êxtase e é somente dele que brotam e germinam as sementes da sabedoria antiga que é a arte de viver em harmonia com tudo o que há, para crescer em direção ao infinito em busca de mais criações e jardins para cultivar e gerar mais sabedoria em toda sua criação. Ela não cansa nunca de se dar à luz mergulhada nas águas escuras de onde surge toda a vida que existe, e se desdobra e se desdobra em ondas de prazer e dor para criar tudo o que há. Ela espera que cada célula de si mesma adquira a sua consciência para que unidas possam criar beleza e encantamento por onde quer que cada uma vá.

Ela sabe que a palavra não é o caminho mais curto entre as almas e conhece a importância do silêncio para a compreensão daquilo que não pode ser dito ou explicado. Não é possível entender com filosofias desencontradas que levam pelos labirintos da mente com todas as suas limitações próprias. É preciso buscar o fio que une a mente ao coração e é preciso buscar a união e não a separação. É preciso desistir de tentar ter razão, é preciso e forçoso para quem vê que é preciso deixar que cada um se afogue com as lágrimas daquilo que plantou e precisa regar, é preciso deixar que cada um se queime sozinho com as palavras de ódio e rancor proferidas por querer ter e não querer ser, por preferir esquecer a tentar lembrar. É preciso deixar que cada um aprenda como deve ser. Essa disciplina devemos a um Deus que ensina que existem dois caminhos: amor e dor. Há muito que se confundem os dois pois é do amor sentir a dor pelo outro que não ama. Mas essa é uma dor que deve passar, pois não se pode amar por quem não ama, é preciso avançar sem medo, é preciso seguir sem rumo, é preciso se dar, se doar, se entregar pois é assim a natureza do amor. Já a dor, dessa, não, não vamos falar. Por hoje estamos bem, só por hoje podemos ficar bem, já que amanhã não há.