24 de ago de 2017

Um caso de Amor


Penetrar nela era um mistério
Um labirinto de dores confundidas de amores
Era uma porta fechada
Um cofre de segredos perdidos.
Era preciso mergulhar nela fundo
Fundo até que perder o ar.
Era preciso ter um caso de amor com a morte.

Ela era um abismo escuro
Uma sala de tesouros desconhecidos.
Era preciso conhecer o valor do que não se vê 
Era preciso amar tudo o que permaneceria para sempre intocável.
Era preciso destruir o que era seguro
Atear fogo nas coisas que não se podia levar na viagem.
Era preciso sentir com ela

O que só ela sentia.

26 de abr de 2017

FlorEser



Há não muito tempo atrás, quando comecei a dizer a mim mesma que já não gostava das flores, - e quando ainda não sabia que havia começado a me identificar como os espinhos que sabiamente a natureza havia me ofertado como forma de proteção, eu crescia adorando os espinhos. Esquecida das flores, usava adereços e jóias em formas pontiagudas e brilhantes de várias cores e tamanhos, - uma forma toda minha de me preparar para as batalhas que eu enfrentava todos os dias, lutando pra não me moldar nas fôrmas que faziam muitas outras flores parecerem todas pertencentes a uma única espécie delicada e frágil e em qual não havia espaço para o misterioso ser que havia em meu interior (e que nesse tempo eu podia apenas pressentir que existia).

Enquanto lidava com todos aqueles espinhos que se armavam em mim, enquanto me tingia de várias cores pra fantasiar sobre quem afinal eu seria; havia sempre o mesmo perfume no ar, uma fragrância que me atraía, e pelas madrugadas adentro, perdida, como uma sonâmbula, enfeitiçada, bêbada de amor, eu prosseguia (ainda sem saber que estava sendo conduzida pelo mistério do meu próprio vazio).

Então um dia, já cheia de dores, pedi por compreensão e sabedoria, bebi da seiva de uma flor que também era rainha e comecei a lembrar de onde eu vim e entendi que era preciso nascer e morrer muitas vezes se quisesse descobrir o que havia do outro lado do que eu já conhecia. Foram muitos e muitos chamados atrás daquele antigo perfume, impregnado em mim como a memória de um grande passado.

Foi numa noite de lua cheia que recuperei a antiga fala das flores e lembrei de um tempo em que haviam rainhas que honravam o seu legado e assim, pelo brilho do Ser emanado, recordavam a todos do seu íntimo reinado e que só por isso eram assim: amadas e reverenciadas.

Houve um tempo que que a Alma governava o mundo e todos por ela eram guiados em suas buscas em direção ao centro da Grande Flor, ao Coração Central onde pulsa tudo que há. Nesse tempo havia respeito por todos os seres delicados e não se negava o direito àquelas que haviam nascido para florescer distantes e protegidas dos olhares e mãos governados pelo desejo da posse e do poder e que estavam destinadas a guiar a todos por entre a escuridão do grande útero sagrado, onde todas as almas repousam até que estejam prontas para suas viagens de vida morte e vida dentro da eternidade de tudo o que simplesmente é e em direção a tudo que virá.


Foi assim que invadi o jardim da minha infância para lembrar à minha criança de sua essência e voltei da viagem impregnada daquele perfume inconfundível de flor que começa a desabrochar.